alegrias do bilinguismo

Gabi:
– mãe, como se chamava a sua professora quando você era pequena?

– Quando eu tinha a sua idade filha, a minha professora se chamava Kátia.
– “Catch ya”?!!!!! Hahaha mãe, que nome engraçado!
………
“Mãe, o sobrenome da minha colega na escola é Gallier (*Lê-se “Galía). Pensa, mãe, galinha! Igual cocó!”
………………
Aqui em casa temos uma ajudante que vem as quartas de manhã, cobra por hora e rapidinho ela dá uma geral na casa toda. O nome dela é Linda. Aí avisei a Gabi “filha, você precisa guardar seus brinquedos todos no lugar senão a Linda vai aspirar tudo com o aspirador de pó”.
E eis que numa bela noite antes de dormir a Gabi olha pros brinquedos todos espalhados no chão e pula da cama toda preocupada: “ai mãe, é amanhã que a “Bonita” vem?”
haha, não, filha; a “Bonita” só vem depois de amanhã. (e quem sou eu pra corrigi-la?)

essas pequenas grandes coisas

Neste Natal tive o privilégio de receber meus pais aqui em casa e durante duas semanas as minhas meninas puderam conviver um pouco mais com os avós que elas tanto amam. O papai fez a Olivia dormir cantando, embalada em seus braços. A mamãe fez incontáveis tabuleiros de pão-e-queijo. Saímos para andar na chuva e no frio, visitamos lugares novos e retornamos a lugares que eles gostam. O papai quase perdeu o chapéu no vento, a mamãe adorou comprar vestidos novos. O papai ficou igual criança em uma loja de facas e canivetes Joseph Rodgers. Os dois se deliciaram nos supermercados ingleses e cozinharam a nossa ceia de Natal. A mamãe colocou a Gabi pra dormir, para que eu e o Tim pudéssemos sair a noite sozinhos. Dividimos várias garrafas de vinho, nos apertamos todos no carro, patinamos no gelo, compramos bilhetes de trem. Ter meus pais por perto é lembrar que o que realmente importa são estas pequenas coisas. Estas pequenas grandes coisas que fazem a vida valer a pena.

E ontem de manhã o Tim saiu da cama quando ainda estava escuro lá fora. Escutei ele levantando mas voltei a dormir. Minutos depois me volta ele, bandeja de café da manhã nas mãos e um feliz aniversário, que por um momento eu havia esquecido. No facebook, mais de 100 amigos me desejaram o bem. Meu coração se aqueceu e eu me senti tão querida. O bem é uma corrente que vai e volta. Fiz 38 anos e percebi como tenho sorte; pelos amigos, pela família, meus pais. Estes são meus verdadeiros presentes de Natal, de aniversário, de vida. Obrigada, 2015. Só gratidão por mais um ano pela frente.

Ballet

A Gabi sempre falava que queria fazer ballet. Então fomos lá matricular na única escola de ballet clássico da minha cidade, que por sinal é filiada ao Ballet Royal de Londres. Confesso que nas primeiras semanas eu estava torcendo veladamente pra ela desistir da idéia, já que as aulas custam uma pequena fortuna mensal. Além do mais, a professora super rígida não permite nem que os pais assistam as aulas. Pensei: isso não vai durar, a Gabi não vai gostar disso não. Mas ela adorou. Chega em casa e me mostra os passinhos que aprendeu. E com aquele corpinho magrinho, aquele coque loiro e cheio, toda vestida de rosa-bebê, com aquele uniformezinho que eu relutei em comprar e me custou uma segunda fortuna. Aceitei que ela leva o maior jeito. E toda semana ela pergunta que dia tem ballet. Bem, perguntava. Até na semana passada.

Na semana passada a Gabi decidiu que não gostava mais do ballet. Mas como assim, filha, você ama o ballet!! “Não, mamãe, não quero ir mais não”. Mas que ótimo!! Depois que nos matriculamos. E compramos este uniforme lindo, completo. E até o casaquinho de frio oficial, na semana passada! Tudo bem então, ainda tenho que pagar mais um mês de multa de cancelamento, que perfeito! Mas deve ter uma razão. Ninguém decide que não gosta assim de um dia pro outro. Filha, mas porque você não gosta do ballet? “Não gosto mais. Não quero ir mais não”
Conversei com o Tim, a Gabi vai largar o ballet. “Não, não pode! Ela é a nossa única esperança, Karla. Olha a Olívia e a Claudia. Você consegue imaginar a Olivia ou a Claudia vestidas de colant e tchutchu?” Ele tinha razão, a Gabi era a nossa única esperança de investimento.
Insisti. Filha, mas tem que haver um motivo. Porque você decidiu que não gosta mais do ballet? “Ah mãe, a gente tem que fazer um passo do ‘cavalo’ e eu não gosto!”
Então era isso, o passo do cavalo. Não faço a mínima idéia do que esse tal passo do cavalo significa, mas ele não vai estragar os planos de futuro da minha filha. Convenci a Gabi de que eu iria conversar com a professora supre “flexível” dela, para deixa-la fora do tal passo do cavalo. Chegamos lá, a Gabi escondida atrás de mim enquanto eu falava: “Olha, a Gabi não queria mais voltar pro ballet. Tem um tal passo do cavalo que ela não gosta, então se ela puder ficar sem fazer este passo do cavalo por algumas semanas, eu agradeceria”. E professora com um sorriso ortodoxo: “Chassé! O passo do pônei. Não, ela não pode ficar sem fazer, faz parte dos exames.”
Meu Deus protetor das bailarinas de 4 anos de idade! E eu que achava que a minha filha estava se divertindo, não estudando para provas do Royal de Londres! Pois seria agora que esta professora iria descer dessa sapatilha de ponta. Abaixei e olhei bem pra Gabi, “Filha, então vamos embora? Você não precisa ficar, se não quiser. Vamos cancelar agora este ballet”. E ela toda sorridente “Quero ficar mamãe”. E saiu galopando pela sala.

o lado leve dessa coisa chamada maternidade

Desde que a Olivia nasceu eu virei a maior ativista do segundo filho. Com um filho a gente vira mãe; com dois a gente vira uma mãe melhor, para os dois. A Gabi tinha que viver dentro de uma rotina, assim uma espécie de “bolha do filho único”. Não acho que toda mãe de um filho só seja assim, mas eu era. Eu sofria se ela não comia o que eu planejava para ela comer. Ou quando ela não dormia no horário planejado para ela dormir. E quando alguém fazia barulho enquanto ela dormia. Ou quando ela chorava por qualquer motivo, seja porque não gostava da cadeirinha do carro ou porque tinha perdido algum brinquedo dentro do próprio quarto. Minha vida se resumia em estressar. A a coitada da pequena se estressava ainda mais. Deve ter sido difícil para ela conviver com uma mãe assim. Todas as expectativas estavam voltadas para ela. Ela não podia falhar. Ela não podia se frustrar. Cresceu com medo de sujar as maozinhas. Cresceu sem andar muito descalço. Cresceu obedecendo as regras e com muito medo de desviar do caminho que eu havia planejado para ela. Ela passou 3 anos carregando esse peso nas costinhas magras.

Até que a Olivia nasceu e a Gabi se libertou – ou eu a deixei libertar-se. Ela agora pode brincar sem medo de sujar a roupa de barro e se um dia a gente chegar tarde em casa e ela dormir no carro, eu não vou cortar os pulsos porque ela vai matar o banho. Ela ainda é daquelas crianças que come um sorvete de duas bolas sem sujar um dedo, isso é um pouco dela também. Mas tenho certeza de que hoje ela é uma menina mais feliz.

Talvez ela não saiba distinguir ainda, mas eu virei uma mãe mais humana para ela. Ela pode ser ela mesma e não é porque me falta tempo, mas porque a chegada do segundo filho me fez perceber que algumas coisas são importantes, já outras podem esperar. Então ela se acalmou; enquanto a Olivia já nasceu calma. Tudo reflexo de uma mãe que aprendeu e ainda está aprendendo.

E enquanto os longos dias passam eu percebo como os meses voam e já já a Olivia completará 1 ano. Meus bebês já nem são mais bebês assim e eu até hoje não acredito que sou mãe. Mãe de duas criaturas lindas, que me ensinam a ser uma pessoa mais leve. Ter duas filhas é bom demais. E deixá-las serem quem elas são é apenas um modo de agradecer todo o resto que elas me dão.

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e foi assim que a Olívia nasceu

Logo que vim morar pela primeira vez aqui na Inglaterra, em 2007, fui fazer um passeio ao País de Gales, organizado pela universidade. No passeio estava incluído escalar uma montanha bem famosa na região. Seriam de 4 a 6 horas de subida, muitas pedras, vento, ar rarefeito. Mas como segunda opção, as pessoas poderiam escolher subir a tal montanha em um trenzinho, coisa assim de meia hora/quarenta minutos, sem suor, bem conveniente, mamao-com-acucar mesmo. E as duas opções permitiriam apreciar exatamente a mesma vista lá de cima. Mas eu lembro muito bem da sensação de chegar no topo da tal montanha com as pernas bambas, os amigos que fiz durante aquelas 5 horas, os milhares de sanduiches que comi para recuperar a energia e as fotos incríveis que tirei pelo caminho. Nós todos apreciamos a mesma vista lá de cima. Mas apenas alguns de nós presenciou o percurso. A sensação de plenitude depois daquela caminhada foi inexplicável.

Assim foi o nascimento da Olívia. A minha caçulinha nasceu há quase 6 meses atrás e eu preciso contar aqui como aquele dia foi especial, um dia abençoado mesmo. A Olívia escolheu nascer exatamente no dia seguinte que meus pais chegaram aqui, numa terça-feira de outubro, eu com 39 semanas e 5 dias de gravidez.

Acordei as 5 horas da manhã com umas colicazinhas e de cara eu já tive certeza, iria conhecer a minha menina! Lembrei bem de como começaram as contrações quando a Gabi nasceu. Mas desta vez eu estava determinada a fazer tudo bem diferente. Quando eu tive a Gabi, eu simplesmente não sabia de nada. Assim como a maioria das grávidas de primeiro filho, eu tinha muito medo de tudo: da “dor” do parto, do desconhecido, daquela coisa nova que iria acontecer e eu nao sabia como lidar. Parto, que palavra doida, a gente usa pra explicar uma coisa muito dificil, dolorosa, longa. “Nossa, hoje foi um parto!” E foi assim que eu fui dar a luz a Gabriela. Com muito medo de parir em um país que não é o meu. Onde nem se usa muito anestesia. Onde as taxas de cesáreas são baixíssimas. “Isso nem se parece primeiro mundo” – pensava eu. Se você não se lembra, leia aqui.

E assim resolvi fazer tudo ao contrário. Eu passei 9 meses me informando, aprendendo, determinando o que eu queria pra mim e pra minha filha. Participei de grupos de discussão, conversei com pessoas da área, me reuni com a supervisora da maternidade, estudei hipnose do parto. Eu queria entender porque o mundo transformou o parto normal num evento tão doloroso. Porque ninguém mais quer escalar a montanha. Porque marcamos cesáreas desnecessárias com 38 semanas de gestação. Porque começamos achar normal abrir um buraco na parede ao invés de sair pela porta. Eu só queria entender porque um evento tão natural do ser humano se transformou, com o passar das décadas, numa cirurgia com hora marcada. Eu queria informação suficiente para escolher o outro caminho e aproveitar a escalada.

Então foi assim. As contrações começaram as 5 da manhã, bem levinhas. De tempos em tempos eu me sentava na cama, respirando e deixando que elas fossem se “desbotando”. As 6h eu acordei o Tim e ficamos nós dois, sorrindo como bobos, contando os minutos entre cada contração. Resolvi que iria tomar meu café, comer, fazer tudo o que normalmente faço e esperar em casa o máximo possível. As 7h acodamos meus pais e avisei que estava indo para o hospital (eu me lembrava em como fui de 2cm pra 6cm com a Gabriela, em menos de 1h). Saimos para o hospital as 7h30, uma pequena viagem de meia hora até a cidade vizinha. Contrações a cada 3 minutos. Fui no banco de trás, apoiada no meu joelho, cabeça enfiada numa almofada, respirando fundo. Não era dor, era uma pressão bem forte. Respirava e sentia esta pressão diminuindo a cada segundo. Lembrava do meu livro de hipnose para o parto. Eu estava perto de conhecer a minha filha.

Chegamos ao hospital e eu caminhei calmamente até a maternidade. De 3 em 3 minutos eu parava de andar, ajoelhava no chão, enfiava a cabeca na minha almofada e respirava, no meio do corredor do hospital.

Depois de 30 minutos em uma cama sendo monitorada (os 30 minutos mais longos da minha vida), a parteira veio me examinar e para nossa surpresa eu já estava com 8cm! Corre-corre para encher a banheira. Entrei na água e foi como entrar em um mundo paralelo. Pedi para que diminuissem a luz, eu só queria me concentrar e ajudar minha filha a nascer da forma mais natural possível. Elas me ofereceram gas&air – aquele gás que funciona como analgésico – mas eu lembrava de como no meu livro de hipnose explicava que quando se inala o gás estamos fazendo o movimento de “sugar”, quando na verdade devemos soprar, expelir. Então recusei qualquer interferência e foi assim nu-e-cru, intenso, inesquecível. As duas parteiras me perguntaram quem iria pegar o bebê, eu ou o Tim, e eu disse que o Tim poderia pegá-la. Só que para a nossa surpresa, assim que elas viram a cabecinha apontar, preceberam que a bolsa ainda não havia estourado, a Olívia ainda estava empelicada. Na próxima contração a cabeça saiu como um balão cheio de água, e com uma força saiu o corpinho todo, só me lembro dela flutuando para o topo, tão rápido que eu não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo! As parteiras tiraram a bolsa e colocaram a minha menininha no meus braços, o cordão ainda pulsando, aquele cheiro de vernix. O Tim finalmente apoiado no meu ombro, depois de ter sido o meu apoio por horas. A água morna da banheira abraçando o meu corpo junto da minha filha e um sorriso no rosto de cada um naquela sala de parto. Uma das experiências mais plenas da minha vida. Se eu pudesse dar um presente para cada grávida desse mundo seria a chance de escalar esta montanha. Porque eu não consigo explicar só com palavras como é a sensação de chegar lá em cima.

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de presente, um poema

Ele é assim que nem mamão com mel.
Daqueles que ele corta picadinho de manhã desde que a gente se entende por gente.
Pão-de-sal molhado no café.
Ele sabe de verdade o que a gente quer.

Ele quando abraça, abraça apertado
E quando beija, é com o coração.
É daqueles que cuida da cria: “estão com fome? já tomaram banho?
Cadê seu chinelo? Olha esse pezão no chão!”
Ele é o nosso herói, o nosso exemplo de dignidade.
E toda vez que penso nele
Meu coração só faz sentir saudade.
O amor que ele sente transborda, o amor que ele demonstra atrai
E eu sei que tenho mesmo é muita sorte na vida
Por poder chamá-lo de Pai.

10 sinais claros de que você está esperando o segundo filho

  1. Você não fica se sentindo a última bolacha do pacote só porque está grávida. A vida continua a mesma ao seu redor, seu primeiro filho(a) te demanda a mesma atenção e você só se lembra mesmo que vai ter outro filho uma vez por mês, durante a consulta do pré-natal.
  2. Você decide que não se deve comer por dois. Lembra de como foi difícil perder aqueles quilos extras da primeira gravidez? E agora com dois filhos você terá menos tempo ainda pra se cuidar, ir a academia, etc. Então você pensa duas vezes. E decide que vai comer por três: por você, pelo bebê e pelo primeiro filho que não para de falar um minuto e já te estressou o dia todo. E aí você repete o prato. E não sossega enquanto não ver o fundo da caixa de bombom.
  3. Você não acha mais bonitinho ter que acordar de três em três horas no meio da noite para ir ao banheiro. Se na primeira gravidez você pensava: “que legal! a mãe natureza é mesmo sábia, já está me treinando para quando o bebê nascer!”, desta vez você pensa: “por%^@! só tenho mais 5 meses para dormir antes do bebê nascer!” E começa a considerar o uso de fraldas geriátricas ou capa plástica no colchão.
  4. Você não compra nenhuma roupa de grávida. Afinal as suas roupas normais de agora acomodam bem uma barriguinha de 5 meses. E por falar nisso, até agora ninguém nem notou que você está grávida mesmo.
  5. Você não compra nenhuma roupa também para o bebê. Aliás, você não sabe onde estava com a cabeça quando gastou aquela fortuna no enxoval do primeiro filho. Milhares de roupinhas que só viram a cor do sol quando sairam da gaveta para serem lavadas com sabão de coco neutro líquido, dois meses antes mesmo do bebê nascer. O segundo filho vai usar o que sobrou deste enxoval presidencial, mesmo não sendo do mesmo sexo do primogênito. Afinal, menina fica linda vestida de marinheiro e se alguém criticar o Joãozinho de rosa com lilás, estará apenas sendo preconceituoso.
  6. Você não vai carregar as sacolas pesadas do supermercado, mas não vai conseguir negar colo para o seu primeiro filho que já pesa 15 quilos.
  7. Você fica muito mais consciente do que pode e do que não pode fazer e, consequentemente, mais preocupada com tudo. Você já tem um filho e sabe como ele é precioso. Você quer tomar conta direitinho deste outro que está aí dentro, porque já entendeu como será o seu amor por ele.
  8. Você já sabe que no dia do parto o seu look sairá exatamente como você não planejou. O seu esmalte vai estar descascado, suas partes baixas estarão mais cabeludas do que as costas do Tony Ramos e você terá ido dormir sem lavar aquele cabelo imundo, que já estava preso num rabo de cavalo nos últimos dois dias.
  9. Você não tem mais medo das contrações. Você sabe que dói mas sabe que dá conta e não vai morrer por isso. Você agora tem medos muito maiores, como o de encontrar a casa suja e bagunçada quando você voltar do hospital.
  10. Você não faz nem idéia do trabalho que terá. As pessoas até tentam te explicar mas você não acredita que a sua vida pode ficar ainda mais louca do que já está. E então começa a classificar seus amigos em 2 grupos: o grupo dos amigos legais – aqueles que te dizem que sua vida vai virar de pernas pro ar; e o grupo dos amigos sinceros: aqueles que te dizem que pernas pro ar era lucro, agora você está é lascada. Daí você se lembra de como foi bom crescer com seus irmãos e começa até a planejar um terceiro. (Tá, o marido não sabe desse plano ainda).

bilhete premiado

Sabe aquelas coisas que só acontecem com os outros? Tipo assim ganhar rifa de igreja, ser entrevistado pelo CENSO ou achar inseto em garrafa de coca-cola? Então, aconteceu comigo. Num descuido de “adolescente” – veja bem, eu SÓ tenho 36 anos e o Tim 42 – descobrimos que vamos ser pais de novo. Isso mesmo, de-no-vo. Pra ser sincera, o susto foi mesmo como achar besouro em refrigerante. Mas ta bom, antes que alguém me interprete mal, o gosto não foi assim tãaaao amargo. Ou como disse o Tim, antes isso do que arranhar o carro (quando eu cheguei em casa chorando ele pensou que eu tivesse batido o carro e ficou extra-aliviado ao descobrir que eu só estava grávida; o carro estava intacto!)

A verdade é que parece que a Gabi nasceu outro dia eu só bem recentemente me recuperei das noites mal dormidas. E ainda não entro no meu skinny jeans pré-gravidez. Não tenho mais nada de bebê aqui em casa, tudo o que eu tinha foi doado. Estava me acostumando com a facilidade de ter uma “toddler” em casa – um ser acima de 2 anos de idade que se alimenta relativamente sozinho, fica quietinho brincando na banheira por meia hora e dorme as 7 da noite. Tá bom, com algumas muitas birras entres estas três atividades. Mas alguém lá em cima deve ter achado que minha vida estava ficando fácil demais e antes que eu posasse de madame, ganhei um presente – não de grego, mas de inglês mesmo – para quebrar a rotina. Então agora faço parte daqueles “outros” para quem as coisas de baixa probabilidade acontecem.

Mas pensando mais com o coração, percebi que talvez seja a minha única chance ser mãe de novo. Talvez a minha única chance de dar um irmão/ã pra Gabriela. De ganhar mais cabelos brancos e dividi-los com o Tim. De entender que os mistérios da vida nem sempre estão ao nosso alcance e o que nos acalenta é confiar que tudo vai ficar bem. Pois então, seja bem vindo, meu segundo/a filho/a. O que não vai te faltar aqui é amor.

A Frustração Francesa – 2013/2014. O reveillon que marcou a história

Fui passar o reveillon em Paris. Nossa, luxo né, você deve estar pensando. Mas espere para tirar as suas próprias conclusões depois que eu contar os detalhes do feriado especial que passamos, eu, Tim, Gabi, sogra, sogro e minha enteada Claudia.

Chegamos em Paris a noite, o que nos meus bons tempos significaria que iriamos deixar as malas no hotel, pegar o metrô e partir para o centro, onde veriamos as luzes, comeriamos em algum restaurante tipicamente francês, caro e ruim, caminharíamos as margens do Sena, crepe ao lado da Torre Eiffel e, por fim, depois de umas 80 fotos, voltariamos felizes para o hotel. Mas isso, na minha presente realidade, esta mais fora de moda do que Foie Gras para ativistas de grupos ecológicos.

Então chegamos ao hotel, desempacotamos a mudança (com criança a gente não faz turismo, a gente faz intercâmbio de fim de semana) dei banho na Gabi, tomamos banho (uma vez na França, não faça como os franceses!), a Gabi dormiu e então só nos restou uma opção; dormir também. Meu relógio marcava 22:30, o que significa que na França eram apenas 21:30, mas tudo bem, amanhã teriamos um longo e lindo dia pela frente, seria reveillon e estavamos em Paris!

31/12/2013: Acordamos e fomos tomar o nosso petit dejauner, com todos os croissants e pain au chocolat que temos direito. Resolvemos sair de carro, pra facilitar. Ficamos 40 minutos perdidos seguindo nosso GPS inglês que, como quelquer bom britânico, obviamente não sabia nada de francês. Por fim achamos um estacionamento no centro e chegamos não sei bem aonde, mas a Gabriela ficou contente quando avistou um carrossel na praça e a Claudia mais contente ainda ao ver uma sorveteria, mesmo num frio de 5 graus. Pronto, crianças contentes, o dia já valeu a pena.

E entre nossas idas ao carrossel e fila para a pista de patinação no gelo, a sogra resolveu ir procurar um banheiro – pra variar – e o sogro foi dar uma voltinha – pra variar – e ficou perdido, também pra variar, voltando depois de umas 2 horas. Finalmente quando ele voltou, a sogra resolveu que, ao invés de passearmos pela cidade, ela queria ir fazer compras, já que assim a Zara na França deve ser super diferente da Zara da Inglaterra, ou pelo menos os preços vem em euros ao invés de libras. E entre idas ao banheiro, lojas espanholas e sorveterias italianas, acabou-se a nossa tarde.

Fomos jantar em um restaurante tipicamente americano e voltamos para o hotel (lembrando que a cada vez que um turista em Paris come em um restaurante americano, 5 franceses com suas boinas se suicidam pulando da ponte Neuf no rio Sena). Barriga cheia, hora de nos prepararmos para o tão sonhado reveillon em Paris.

E foi aquela correria. Já estavamos super atrasados, graças ao tempo que perdemos comendo aqueles super steaks e milhões de batatas fritas que nem eram french-fries. O Tim amarelando: “vamos deixar disso, vai ser muito difícil ir com criança. Vamos tomar nosso champagne aqui mesmo no hotel e amanhã nos vamos passear mais”. Mas eu: “ta doido, amor? É reveillon e estamos em Paris!” Coloquei a Gabi na banheira e na pia mesmo já comecei a lavar meu rosto, para adiantar meu banho estilo francês. Enchi a mão com o sabonete líquido do hotel e comecei a esfregar meus cílios, tentando tirar um rímel a prova d’água que ganhei de aniversário e testei durante o dia. Foi a coisa mais portuguesa que eu já fiz na França. O sabão literalmente lavando meus olhos por dentro foi uma dor insuportável, não sei onde eu estava com a cabeça. Neste meio tempo, amigos e familiares começavam a ligar no meu telefone, para desejar feliz ano novo. Obviamente não consegui atender ninguém. Com os olhos vermelhos por dentro e borrados de preto por fora, meu figurino de reveillon era puro glamour.

Enfim, criancas prontas, adultos assim como deu pra ser (sogra e sogro foram dormir, mas não antes de tentarem me convencer de que “ir para o centro com criança aquela hora e naquele frio não seria uma boa idéia”. E eu pensando “losers! É reveillon e estamos em Paris! Vão dormir vocês, fracassados!” haha. Saímos do hotel e chegamos na estação, Gabi já bem cansada, mas feliz por andar de “trem”. Só que o próximo só chegaria em 27 minutos. E já eram 10:15 da noite. O Tim querendo desistir: “acho que não vai dar tempo. Demoramos muito pra sair” e eu “temos que ir, amor! Vai dar tempo sim. É reveillon, estamos em Paris!”. Foi aí que me dei conta de que esquecemos a câmera fotográfica. Como havia tempo até o trem chegar, eu convenci o Tim a voltar pra buscar, enquanto eu esperava com as meninas na estação. Afinal, era reveillon e estavamos em Paris! Precisariamos tirar pelo menos uma meia duzia centena de fotos.

Finalmente pegamos o trem e 10 minutos depois a Gabi já estava dormindo no carrinho. Mas ainda faltava uma meia hora até chegarmos na estação final e eu comecei a ficar com medo de realmente não chegarmos a tempo da virada. Por fim descemos do trem e percebemos todos os elevadores da estação parados, escadas rolantes desligadas. Olhei para aquelas escadas enormes, cada uma com uns 100 degraus no mínimo cada. O Tim querendo desistir e eu “agora que chegamos até aqui temos que ir! É reveillon! Estamos em Paris!”. Ele cogitou alguns minutos, mas não poderíamos perder tempo. Subimos juntos o que pareceu ser a escada mais longa da minha vida, eu segurando o carrinho da Gabi pelos pés e o Tim pela frente.

Mas qual não foi a nossa surpresa ao chegarmos lá em cima e perceber que havíamos subido apenas UM andar. Deveria ter mais uns três pelo menos acima. Ou Deus sabe mais quantos. E eu não tinha me lembrado desse detalhe. Quem já viu o metrô de Paris sabe do que estou falando, a cidade é oca por baixo, como diz meu pai. Foi aí que o Tim jogou a toalha, a decisão estava em minhas mãos. Eram quase 11:40 da noite, não iriamos conseguir sair da estação e andar ate onde deveriamos andar, para vermos a virada a tempo. Mas eu sentia que precisava tentar. Afinal, era reveillon e estavamos em Paris!

Ficamos assim parados por alguns minutos, eu tentando me convencer por dentro de que ele estava certo. Poderiamos voltar amanhã durante o dia, com a Gabi acordada, os elevadores funcionando, como qualquer casal normal com filhos. Mas amanhã não seria mais dia 31. Meu coração de viajante me mandava subir mais aqueles 500 e tantos degraus e me aventurar pelas ruas geladas, com os olhos brilhando pelas luzes de ano novo. Mas meu coração de mãe naquela hora olhou para a Gabi dormindo, cheia de cobertores e com a capa de chuva do carrinho por cima, para evitar o vento no rosto. Olhei de novo para a cara do Tim, que mais parecia um cachorro que caiu da mudança. Não falei muito, só engoli seco. Engolir seco na França é algo assim como engolir um escargot inteiro sem pestanejar. Olhei pra baixo, pegamos de novo o carrinho e descemos os 100 degraus que a haviamos acabado de subir.

Ficamos parados na plataforma, esperando o mesmo trem, desta vez de volta. Assisti os números mudando naquele relógio, de minuto a minuto, imaginando as luzes, os tim-tins de copos, a Torre brilhando, o frio no rosto. Estar frustrada em Paris doía mais do que estar frustrada em qualquer outro lugar do mundo. Tá bom, era uma dor assim muito mais chique, pra falar verdade. De repente uma frustração mais sofisticada do que uma frustração em Belo Horizonte, em Brasília ou em Rugeley – cidadezinha do interior da Inglaterra, onde moro. Mas quando o relógio da estação marcou meia noite, uma lagriminha solitária desceu pelos meus olhos borrados de rímel da tarde anterior. Eu deveria ter tirado uma foto com aquela câmera que fiz o Tim voltar pra buscar. 00:00. Então o Tim veio me abraçar: “feliz ano novo. Não importa, babe. Estamos em Paris”. E eu assim com aquela cara de Napoleão que perdeu a guerra, peguei o trem de volta para o hotel, para esperar o ano novo que começava.

o melhor do natal

Eu sempre gostei de Natal, por motivos bem melhores que simplesmente presentes. Dezembro sempre foi meu mês favorito desde criança, o mais esperado do ano: férias da escola, meu aniversário, praia. Lembro das tardes que eu passava na casa da minha avó, depois que as aulas acabavam. Eu e minha irmã decorávamos todas aquelas músicas insuportáveis de boas festas da Rede Globo, aquelas que os atores cantavam todos juntinhos com gorro de papai Noel. E fazíamos apresentações especiais para as tias (coitadas), que tinham que nos aguentar o mês inteiro. Embrulhávamos nossos presentinhos imaginários e ajudávamos a vovó a montar a tão esperada árvore. Era um ritual em família. Ou melhor, entre eu, minha irmã e minha avó, já que meu irmão e primos ainda eram muito pequenos para se meterem em tão importante tarefa. Primeiro ela subia em uma escada e tirava todas as caixas lá de cima daquele armário que ninguém usava. Aquelas bolinhas de vidro da época, completamente “non child-safe”. Aqueles enfeites de madeira pintados, super chiques e únicos, que minha tia havia trazido do Paraguai, que nos anos 80 era assim melhor que Miami (pelo menos na minha cabeça). E encaixávamos aqueles galhos fininhos da árvore, um por um no tronco em pé em uma base ainda mais estreita, que sempre tombava se pisássemos com mais fervor perto dela, depois de montada (e por isso tínhamos que escutar a cada meia hora a vovó com um “cuidado que a árvore cai!”) Inclusive acho que foi só agora que me dei conta de como era magrinha aquela árvore. Mas pra mim ela era a mais linda que existia.

Depois quando os anos foram passando, Natal virou sinônimo de festa lá na casa dos meus pais, com a família toda reunida, muito barulho, muita comida e aqueles amigos bêbados que ficam até as 4 da manhã cantando desafinado enquanto meu pai tocava violão. Na manhã seguinte a gente dormia até tarde, aquela tranquilidade boa de acordar em clima de domingo com Panetone no café da manhã.

Natal agora é um pouco diferente. Estou longe da família em que nasci, mas com a família que formei. No começo deste mês, montamos nossa árvore, uma árvore comum com enfeites comuns, mas acho que para a Gabi deve ser uma árvore enorme com luzes vermelhas que só não brilham mais que seus próprios olhinhos. Ela está encantada com a decoração da cidade e tudo que pisca ela chama de “christmas tree”. Aprendeu na escola a cantar “Jingle Bells” e “Merry Christmas” (para não ficar pra trás, já ensinei a ela a aquela versão do “não faz mal, não faz mal, limpa com jornal”). Ela não está preocupada com presentes, fica mais feliz toda vez que encontra um dos pirulitos em formato de bengalinha pendurados na árvore. E eu costumava achar que a melhor coisa do Natal era ser criança. Até que eu tive uma filha. Estou sendo abençoada com mais um Natal e acho que daqui ha algum tempo este ano também vai entrar na minha lista das boas lembranças.

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Desejo a você também um Natal de deixar saudades :)