dói, mas precisa

Aqui na Inglaterra existe um grande grupo de pessoas que é contra a vacinação infantil. A princípio me soou como coisa de gente ignorante, coisa de pais loucos, hippies talvez? coisa que eu nunca havia escutado antes no Brasil. Existe uma legião que afirma que alguns componentes nas vacinas podem aumentar as chances da criança desenvolver autismo. Aí ontem a Gabriela foi tomar aquela vacina de quando se completa um ano, acho que meningite + tríplice + alguma outra coisa que não me lembro, uma das piores de acordo com este grupo. Três agulhadas de uma vez só. E desde então ela não tem se sentido bem, fora a dor nas perninhas, ela esta rouquinha, amuada e com muita diarréia. Aí hoje, depois de ter que trocar a roupa de cama inteira do berço dela e colocá-la no banho as 6:40 da manhã, fiquei pensando nessa polêmica da vacina. Claro que eu não deixaria de vaciná-la, sou muito ocidental e normal para isso. Mas senti vontade de conversar a respeito e só existe uma pessoa que pode me ajudar, o meu avô. Isso, quero perguntar a opinião dele. Aquele médico “das antigas”, uma das pessoas mais inteligentes que já vi. Com certeza ele vai me abrir os caminhos, me explicar com bases científicas e me citar várias provas e estudos, seja qual for a opinião dele. Com certeza ele sabe tudo sobre vacinas, sobre autismo, sobre qualquer outro assunto do mundo, de guerras religiosas a receitas de geléia. Pensei em telefoná-lo. Quero ouvir sua voz. Acontece que meu avô não está mais aqui conosco há quase um ano. E por um segundo, aquilo me veio a cabeça como um choque. Chorei tomando meu café da manhã, a Gabriela me olhando amuadinha, sentada na cadeirinha dela. Que saudades me deu do meu avô. Meu avô era o nosso guia. Se a gente estava doente, era só ligar e ele saberia o que indicar – e na maioria das vezes não era remédio. Meu avô era contra remédios. E detestava hospital. Odiava anestesia, cirurgia plástica, cirurgia. Mas amava sua profissão. Adorava aprender, estudar. Era daqueles que, no passado, atendia as pessoas no consultório em troca de um porco vivo, ou uma galinha, quando não podiam pagar pela consulta. Ele atendia não por dinheiro, mas por amor a vida. Hoje eu queria poder te telefonar, vovô. Te contar da Gabriela, te apresentar a ela, que você só conheceu por fotografia. Sei que você me diria pra ficar tranquila, que ela vai ficar bem e a vacina é importante. Ou como disse a Maria Clara minha afilhada um dia no posto médico, antes de levar a agulhada: “dói, mas precisa”. A sua ausência hoje também me dói, vovô.

 

medalhas pra gente

E assim terminou Julho por aqui, com Olimpíadas, visita dos meus pais, minha enteada aqui em casa por um mês inteiro, aniversário da Gabriela e algumas tragédias caseiras envolvendo a minha pequena, como um tombão da escada abaixo e meia hora presa dentro do carro, com direito a janela quebrada para salvá-la.

Aí a mamãe e o papai foram embora e me deixaram com saudades daquela baderna toda, dos dias intensos e daquele caos que me faz sentir mais em casa do que na minha propria casa. Saudades dos nossos tours por shopping centers, de pegar o trem, de fazer o café pro papai de manhã e esperar a mamãe tomar banho, secar o cabelo, arrumar e desarrumar a mala com as novas compras, etc etc etc e, enfim, descer para o café. Saudade de torcer com eles pelo Brasil nas Olimpíadas. E eu que nunca fui interessada em esportes – pra se ter uma ideia eu era a última a perder na queimada, porque desviava da bola que nem diabo da cruz – fiquei meio que viciada em assistir aos jogos. Então fomos ver o Brasil jogar futebol e voleibol e me senti tao patriota vendo a nossa torcida, sempre a maior e mais animada de todas. A cada 15 minutos tinha uma “Ola”, ou seja, nao dava nem pra acompanhar o jogo direito e ja era hora de levantar de novo, olaaaaaaaa! *O Tim disse que nunca viu tanto barulho no estádio do Manchester, nem quando o próprio Manchester United vai jogar.

Ainda nas Olimpíadas, um dos melhores momentos mesmo foi na partida de voleibol masculino do Brasil contra a Sérvia, quando percebemos um cara se contorcendo de raiva a cada ponto que o Brasil marcava. O que seria perfeitamente aceitável se ele fosse um cidadao da Sérvia. Mas não. A certa pessoa tinha o cabelo e corpo igual ao do Maradona e, pra piorar, estava lá desde o jogo anterior, quando a Argentina jogou contra a Bulgária. Ta certo que o infeliz não estava com a tradicional camisa listrada de azul claro e branco, mas sou capaz de apostar por Evita Peron que a comida favorita dele era bife de chorizo. Alem do que, o ódio nel corazon que ele sentia toda vez que marcávamos algum ponto só me leva a ter certeza absoluta, meus caros hermanos, de que o cidadão era na verdade argentino:

E por fim, fechando meu mês com medalha de ouro, a Gabi fez um aninho. Seu primeiro ano aqui com a gente, seu primeiro ano no planeta Terra. Lembro bem daquela segunda-feira de manhã, 25 de julho de 2011, quando acordei toda ansiosa, sentindo umas contrações levinhas, e pensei – é isso! é hoje que vou ver minha filha!!! E depois lembro bem das noites mal dormidas das primeiras semanas, das mamadas da madrugada, das milhões de roupinhas sujas. “Socooooorro!!! o que eu fui fazer da minha vidaaaaaa????” , eu pensava. Aqueles dias intermináveis dos primeiros 3 meses, as descobertas deliciosas dos meses seguintes. A primeira vez que ela percebeu que eu era a sua mãe, e me amou. Tudo tao novo no começo, tudo vai ficando mais fácil com o tempo, mas ainda assim difícil. E ainda assim, indescritível. Ter esta pessoinha aqui, uma pessoa que antes não existia. Que tem você como uma das duas pessoas mais importantes do mundinho dela. Esta menininha completou 365 dias com a gente, é muito intenso para tão pouco tempo. Aí quando ela abraça meu pescoço, deita a cabecinha no meu ombro e adormece, eu sei que tudo valeu a pena. E de aniversário para ela queria pedir a Deus um presente: que ele a abençõe sempre, para que ela tenha paixão pela a vida, sede de aprender e sempre plante o bem. E que ela saiba que no meu pódio o número um é so dela, da minha menina de ouro, minha Gabriela.