muitos anos atrás, numa sexta-feira santa

Sempre que chega um feriado ou data especial me da uma baita saudade de casa. Eu fico imaginando o que cada um esta fazendo, o que estão comendo, conversando, como está o tempo, etc. E as vezes tambem fico desencavando lembranças, do tipo “há X anos atrás, nesta data, eu estava fazendo isso ou aquilo”. E aí me veio a memória da semana santa. Uma memória bem lá de longe, da minha infância. Semana santa pra mim não era simplesmente ovos de chocolate, como para muitas crianças. (Aliás, eu e meus irmãos nem ganhavamos tantos assim – era um ovo só e as vezes um coelhinho da madrinha; e eu ficava com uma invejinha dos amiguinhos da escola que contavam as vantagens na segunda-feira que ganharam um “número 15” da mãe, um “número 20” do pai, um “número 40” do tio e assim subsequente, naquela progressão aritmética Pascal que conhecemos bem).

A lembrança real que tenho da Páscoa é daquele cheiro de vela queimando na procissão de sexta-feira da paixão. Do meu bisavô fazendo uma rodelinha de papelão com um buraco no meio, para que eu e minha irmã colocássemos a nossa vela branca e assim evitássemos que a cera derretida pingasse na nossa mão. Da preparação para o dia, das barraquinhas que vendiam churros e pastel de bacalhau. A pracinha da matriz se fazia viva e era como se o mundo inteiro fizesse parte. Do clima de fé, daquele que transcende qualquer crença e religião. Da minha irmã que chorava todos os anos quando a imagem da Virgem Maria passava, aquela toda vestida de luto e com uma espada fincada no coração. E daquele monte de gente andando em fila e em completo silêncio, as velas acesas que pareciam estrelas na noite. O único barulho que se ouvia era o daquela catraca que alguém passava batendo, anunciando algo que eu nunca entendi bem o que. E da minha bisavó e da irmã dela assistindo a tudo pela varandinha de casa, ja cansadas para acompanhar a procissão a pé. Tudo assim tão simples mas ao mesmo tempo tão grande na minha lembrança. E tudo tão melhor do que qualquer ovo de chocolate; muito mais doce e belo, na minha imaginação de menina.