o melhor do natal

Eu sempre gostei de Natal, por motivos bem melhores que simplesmente presentes. Dezembro sempre foi meu mês favorito desde criança, o mais esperado do ano: férias da escola, meu aniversário, praia. Lembro das tardes que eu passava na casa da minha avó, depois que as aulas acabavam. Eu e minha irmã decorávamos todas aquelas músicas insuportáveis de boas festas da Rede Globo, aquelas que os atores cantavam todos juntinhos com gorro de papai Noel. E fazíamos apresentações especiais para as tias (coitadas), que tinham que nos aguentar o mês inteiro. Embrulhávamos nossos presentinhos imaginários e ajudávamos a vovó a montar a tão esperada árvore. Era um ritual em família. Ou melhor, entre eu, minha irmã e minha avó, já que meu irmão e primos ainda eram muito pequenos para se meterem em tão importante tarefa. Primeiro ela subia em uma escada e tirava todas as caixas lá de cima daquele armário que ninguém usava. Aquelas bolinhas de vidro da época, completamente “non child-safe”. Aqueles enfeites de madeira pintados, super chiques e únicos, que minha tia havia trazido do Paraguai, que nos anos 80 era assim melhor que Miami (pelo menos na minha cabeça). E encaixávamos aqueles galhos fininhos da árvore, um por um no tronco em pé em uma base ainda mais estreita, que sempre tombava se pisássemos com mais fervor perto dela, depois de montada (e por isso tínhamos que escutar a cada meia hora a vovó com um “cuidado que a árvore cai!”) Inclusive acho que foi só agora que me dei conta de como era magrinha aquela árvore. Mas pra mim ela era a mais linda que existia.

Depois quando os anos foram passando, Natal virou sinônimo de festa lá na casa dos meus pais, com a família toda reunida, muito barulho, muita comida e aqueles amigos bêbados que ficam até as 4 da manhã cantando desafinado enquanto meu pai tocava violão. Na manhã seguinte a gente dormia até tarde, aquela tranquilidade boa de acordar em clima de domingo com Panetone no café da manhã.

Natal agora é um pouco diferente. Estou longe da família em que nasci, mas com a família que formei. No começo deste mês, montamos nossa árvore, uma árvore comum com enfeites comuns, mas acho que para a Gabi deve ser uma árvore enorme com luzes vermelhas que só não brilham mais que seus próprios olhinhos. Ela está encantada com a decoração da cidade e tudo que pisca ela chama de “christmas tree”. Aprendeu na escola a cantar “Jingle Bells” e “Merry Christmas” (para não ficar pra trás, já ensinei a ela a aquela versão do “não faz mal, não faz mal, limpa com jornal”). Ela não está preocupada com presentes, fica mais feliz toda vez que encontra um dos pirulitos em formato de bengalinha pendurados na árvore. E eu costumava achar que a melhor coisa do Natal era ser criança. Até que eu tive uma filha. Estou sendo abençoada com mais um Natal e acho que daqui ha algum tempo este ano também vai entrar na minha lista das boas lembranças.

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Desejo a você também um Natal de deixar saudades :)

olhos e janelas

Parece mesmo papo de Miss Universo, mas esta semana que passou eu fiquei pensando sobre os problemas do mundo. É bem lugar comum falar isso, mas fiquei pensando em como as vezes – ou quase sempre – a gente pensa que os problemas que temos são os maiores possíveis e ninguém está passando por nada igual. De certa forma acho que estamos certos em um ponto: ninguém melhor do que nós mesmos para entender nossas próprias angústias, o nosso momento vivido. Mas seja lá o que for que estivermos passando hoje, vai sempre existir alguém em situação muito mais difícil. Não se trata necessariamente de situação “pior” – cada qual sabe o quão doido é o calo em seu próprio pé. E talvez uma situação que pareça simples pra um, é muito complicada de lidar para o outro.

Exemplos corriqueiros estão em toda parte. Quantas vezes já reclamei de uma comida que não gostava, prontinha lá na mesa esperando por mim. Ou pensei que fosse morrer de fome, depois de um dia longo fora. Mas de verdade, o que é “passar fome” realmente? Eu não sei, e você aí no seu iphone lendo isso provavelmente também não deve saber. Já me senti a pessoa mais “sem liberdade do mundo” quando, aos 15 anos, não tinha a chave de casa. Sem entender que existem pessoas lutando por liberdade de verdade, seja ela física ou de expressão, ou simplesmente por direitos civis, por necessidades básicas. E vivo reclamando de como a minha filha me dá “trabalho”, de como estou com saudade da família no Brasil e já faz UM mês(!) que não os vejo. Enquanto deveria mesmo era estar grata por ter uma filha aqui comigo e uma família do outro lado do mundo. E aí a gente reclama da chuva que não pára, da gripe que não passa, do trânsito, da dor nas costas. E daquela espinha inconveniente, da grana que está curta, dos dias que passam rápido demais e dos dias que custam pra passar. Tudo parece tão “injusto” as vezes.

A verdade é que a gente reclama muitas vezes por hábito e poucas vezes porque realmente dói. E esquecemos que, fora ali do nosso mundinho, existem pessoas travando batalhas muito maiores do que as nossas. Esquecemos e julgamos, julgamos o outro quando não consideramos seus problemas dignos de dor e nos julgamos merecedores de atenção especial, simplesmente porque a ferida quando é na nossa pele parece sangrar mais do que na dos outros. E veja bem, não estou aqui escrevendo isso tudo porque eu “beatifiquei” e vou parar de reclamar a cada vez que eu não tenha um dia bom ou receba meus extratos bancários. Quem me dera. Mas quero pelo menos tentar me lembrar disso tudo o maior tempo possível por dia e quem sabe aprender um pouco, seja com a dor do outro, seja com as minhas próprias dores.

Acho mesmo que o ser humano é um eterno inconformado. Mas que esta “inconformidade” então seja usada para cicatrizar feridas e não para a nossa auto-piedade. É o papo contrário da grama verde do vizinho. Enquanto a gente lamenta a nossa graminha surrada, do outro lado da rua tem uma casinha que nem sequer jardim tem. Então seja lá o que estivermos passando, vamos abrir os olhos para as janelas alheias, fechar as nossas por um momento e perceber como temos sorte na vida.

O dia em que eu falei nao pra ela

Dois anos e quatro meses se passaram desde que eu passei do estado de simples mortal para o estado de simples-mente mae. O que, na verdade, nao eh nenhum credito. Eh apenas uma condicao.

Enquanto tem maes que trabalham “fora” e cuidam dos filhos no tempo livre (se eh que mae tem tempo livre!), eu tenho o privilegio de cuidar da minha filha em tempo integral (se eh que podemos chamar isso de privilegio, haha). Bem, resumindo, eu vivi estes 2 anos e 4 meses “em funcao” da minha filha. Vou explicar melhor.

As pessoas normais passam 9 meses esperando pelo bebe. Eu vivi 2 anos esperando pela Gabi: esperando que ela acorde, para que eu comecasse o meu dia. Esperando que ela chore, para que eu a conforte. Esperando que ela tenha fome, para que eu tambem possa comer. Esperando que ela desse o grito, para que eu estaja la, de prontidao. Esperando que ela durma, para que eu possa fazer algo sozinha, como por exemplo ir ao banheiro, comer uma barra de chocolate ou olhar para o teto. Leva-la para a escola, por exemplo, doi mais em mim do que nela. (Vai que ela passe a nao precisar mais de mim? Assim como quando ela parou de mamar no peito. Vai que ela pare de me “amar”.)

So muito recentemente, eu entendi que eu nao preciso viver em “funcao” dela. Que eu posso fazer as minhas coisas, deixar que ela faca as coisas dela, e ainda assim, ama-la incondicionalmente. E nao sei se foram os dois anos completos dela que me permitiram enxergar isso, ou se foi o bebe de uma amiga que nasceu e me fez enxergar bebes de outra maneira (tudo parece tao mais facil agora que ja “sei das coisas”!), ou se foi a ajuda da minha brilhante terapeuta no Brasil, ou tudo isso junto.

Durante estes ultimos meses, eu nao encontrei nem motivacao para escrever aqui. Era como se a maternidade tivesse me sugado. Ou eu permitido que ela me absorvesse por completo. Mas perai, nao era a maternidade esta coisa linda de se viver? Este estado natural-espiritual-humanizado que nos fortalece e nos faz uma pessoa melhor, quase uma madre-Tereza de Calcuta? Eu acho que custei um pouco a entender que maternidade nao eh simplesmente doacao. Mas troca e crescimento mutuo. Pois bem, vou contar um pouco aqui.

Quando a Gabi nasceu eu me vi literalmente “sozinha”. Tinha acabado de ganhar aquele bebe lindo e saudavel, mas no dia seguinte ao chegar em casa, quando acordei e o Tim foi trabalhar, a primeira coisa que pensei, ao olhar em volta e ver aquela bagunca (so porque fiquei fora por 2 dias e meio!) foi: fudeu. Por sorte os recem-nascidos dormem muito durante o dia, entao eu tentava botar as coisas no lugar quando dava. Meus pais vieram pra ca, minha mae ficou tres semanas comigo e acabou tendo que ir embora antes da hora, porque meu avo – e pai dela – sofreu um infarto. Lembro da noite em que ela se foi, eu com aquele bebe de um mes acordado de madrugada (Gabi nunca foi de dormir, quem eh de dormir eh a mae dela) e chorando (nao ela; eu), pensando: ca estou eu de novo, “sozinha”. E nao posso devolver este bebe para dentro do meu utero. Ela eh minha pra sempre e eu preciso cuidar dela. O meu avozinho estava mal, mas eu so pensava em mim mesma. Na vida que seguia, agora com um bebe. E o peso da responsabilidade bateu. Bateu como um tapa na cara, desses que eu nunca levei na vida.

E os meses foram passando, Gabi foi crescendo, mas eu nao conseguia entender que eu nao estava sozinha. Ao inves de ve-la como uma companhia, eu a via como um anexo de mim mesma. Ou seja, a vida so andava quando a Gabi queria. Porque afinal, eu nao tinha como andar pelas metades. E assim abri mao de muitas coisas, nao porque a Gabi pediu, mas porque eu entendi que deveria. Que ser mae era assim mesmo. Que agora “fudeu”. A verdade eh que eu nunca duvidei do meu amor por ela, mas varias vezes cogitei a possibilidade de nao ser uma boa mae.

E ai eu lia, pesquisava sobre filhos, criacao, sopinhas caseiras, brincadeiras Montessori, bilinguismo, educacao, depressao-pos-parto. E tudo mais que pudesse ser relacionado a filhos e a maes com tempo e neura de sobra para fazer este tipo de pesquisa. Afinal, eu queria ser perfeita pra ela. Queria ser uma mae da qual ela se orgulharia. A minha culpa de um dia ter pensado “agora fudeu” era muito grande para que eu me permitisse errar. Meu maior terror era pensar que ela nao me amaria um dia. Entao, a minha principal meta do dia era nao deixa-la chorar. Antes que ela soltasse o primeiro grito, la estava eu para atende-la com o que quer que ela precisasse: um colo, uma teta, um pirulito. E mesmo assim ela chorava, chorava como se o mundo fosse acabar em agua. Lembro da minha mae falando que aquilo era fome. E la vinha eu, com leite, com musica, com colo, com o diabo a quatro, qualquer coisa que fosse ajudar a acalmar o choro. Lembro de uma noite, quando ela estava com uns 10 meses, ela chorou tanto, por tanto tempo, que eu e o Tim quase a levamos para o hospital, pensando que algo nao estava bem, que ela estava com alguma dor aguda ou sei la o que. E cada vez que ela chorava, eu me debulhava em lagrimas por dentro. Eu nao queria que ela chorasse. Eu estava “sozinha”. E se ela estava chorando tanto era porque eu estava fracassando na incrivel arte de ser mae. Eu nao tinha com quem contar.

Foi ha pouco tempo atras que a minha terapeuta me veio com esta afirmacao: “Karla, voce pode falar ‘nao’ para ela”. Nao que eu nao ensinasse o certo e errado pra Gabi. Nao que eu fosse permissiva, ou que ela fosse mal educada. Gabi eh uma menina linda. Nao faz falta de educacao, nao briga com outras criancas, nao desrespeita os mais velhos. Porem, eu estava ensinando a Gabi uma coisa ao contrario: Gabi nao sabe lidar com frustracao.

Se ela quer algo e nao consegue, a casa cai. E eu sempre achei que isso era forca de vontade, determinacao. Gabi eh mandona. Entao pronto, nao podemos mudar o ciclo das coisas, nem a personalidade das pessoas. Mas nao eh bem essa a verdade. Gabi, assim, como eu, precisa aprender a lidar com o nao. Nao falo simplesmente um “nao” de coisa “errada”. Afinal, a Gabi, assim como eu, nao faz “coisas erradas” (seja la o que isso significa!) Mas estou falando de um nao de “infelizmente voce ‘nao’ pode ter/fazer isso agora, querida”. E ai pode chorar, espernear, se debater. E aprender com isso uma licao importante, pra vida. Vai passar. E ponto final.

Notei que esse tipo de “nao” doi muito no coracao da Gabi. (Bem, doia mais ha algumas semanas atras, mas agora ela ja esta lidando melhor com ele – ou seria eu quem estou lidando melhor com isso tudo?) E por outro lado, poder usar este “nao” quando preciso me da um sentimento de poder enorme, nao um poder de rei, mas um poder doce de “poder ser mae” por completo, de poder tomar uma decisao que vai desagrada-la, se eu achar que eh para o bem dela. E ai de repente eu percebi que somos duas pessoas separadas, eu sou a mae e ela a filha, dois seres humanos diferentes, que se acompanham, mas nao se completam, porque ninguem tem que completar ninguem neste mundo. E foi ai que eu me senti livre. Livre para ama-la da forma mais incondicional possivel, sem me preocupar se ela vai me amar de volta, sem tentar ser uma super-mae de guia de auto-ajuda para mamaes de primeira viagem.

Eu aceitei que eu nao sou perfeita, ela nao eh perfeita, e nem temos que ser. Aprendi que se ela chorar, eu posso ate oferecer meu colo e meu carinho, mas nao posso evitar suas lagrimas. Que ela vai encontrar outros muitos “naos” pela frente na vida e eu nao vou conseguir catar cada pedrinha do seu caminho. E estou aprendendo ainda que o melhor presente que posso oferece-la eh deixa-la ser ela mesma, com suas manias, suas docuras, suas frustracoes.

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*Outro dia falei que a Gabi esta no melhor momento dela. Estou adorando tudo o que ela faz, o que ela fala, o que ela eh. Mas acho que nao foi a Gabi que mudou. No fundo mesmo, quem mudou fui eu.