A Frustração Francesa – 2013/2014. O reveillon que marcou a história

Fui passar o reveillon em Paris. Nossa, luxo né, você deve estar pensando. Mas espere para tirar as suas próprias conclusões depois que eu contar os detalhes do feriado especial que passamos, eu, Tim, Gabi, sogra, sogro e minha enteada Claudia.

Chegamos em Paris a noite, o que nos meus bons tempos significaria que iriamos deixar as malas no hotel, pegar o metrô e partir para o centro, onde veriamos as luzes, comeriamos em algum restaurante tipicamente francês, caro e ruim, caminharíamos as margens do Sena, crepe ao lado da Torre Eiffel e, por fim, depois de umas 80 fotos, voltariamos felizes para o hotel. Mas isso, na minha presente realidade, esta mais fora de moda do que Foie Gras para ativistas de grupos ecológicos.

Então chegamos ao hotel, desempacotamos a mudança (com criança a gente não faz turismo, a gente faz intercâmbio de fim de semana) dei banho na Gabi, tomamos banho (uma vez na França, não faça como os franceses!), a Gabi dormiu e então só nos restou uma opção; dormir também. Meu relógio marcava 22:30, o que significa que na França eram apenas 21:30, mas tudo bem, amanhã teriamos um longo e lindo dia pela frente, seria reveillon e estavamos em Paris!

31/12/2013: Acordamos e fomos tomar o nosso petit dejauner, com todos os croissants e pain au chocolat que temos direito. Resolvemos sair de carro, pra facilitar. Ficamos 40 minutos perdidos seguindo nosso GPS inglês que, como quelquer bom britânico, obviamente não sabia nada de francês. Por fim achamos um estacionamento no centro e chegamos não sei bem aonde, mas a Gabriela ficou contente quando avistou um carrossel na praça e a Claudia mais contente ainda ao ver uma sorveteria, mesmo num frio de 5 graus. Pronto, crianças contentes, o dia já valeu a pena.

E entre nossas idas ao carrossel e fila para a pista de patinação no gelo, a sogra resolveu ir procurar um banheiro – pra variar – e o sogro foi dar uma voltinha – pra variar – e ficou perdido, também pra variar, voltando depois de umas 2 horas. Finalmente quando ele voltou, a sogra resolveu que, ao invés de passearmos pela cidade, ela queria ir fazer compras, já que assim a Zara na França deve ser super diferente da Zara da Inglaterra, ou pelo menos os preços vem em euros ao invés de libras. E entre idas ao banheiro, lojas espanholas e sorveterias italianas, acabou-se a nossa tarde.

Fomos jantar em um restaurante tipicamente americano e voltamos para o hotel (lembrando que a cada vez que um turista em Paris come em um restaurante americano, 5 franceses com suas boinas se suicidam pulando da ponte Neuf no rio Sena). Barriga cheia, hora de nos prepararmos para o tão sonhado reveillon em Paris.

E foi aquela correria. Já estavamos super atrasados, graças ao tempo que perdemos comendo aqueles super steaks e milhões de batatas fritas que nem eram french-fries. O Tim amarelando: “vamos deixar disso, vai ser muito difícil ir com criança. Vamos tomar nosso champagne aqui mesmo no hotel e amanhã nos vamos passear mais”. Mas eu: “ta doido, amor? É reveillon e estamos em Paris!” Coloquei a Gabi na banheira e na pia mesmo já comecei a lavar meu rosto, para adiantar meu banho estilo francês. Enchi a mão com o sabonete líquido do hotel e comecei a esfregar meus cílios, tentando tirar um rímel a prova d’água que ganhei de aniversário e testei durante o dia. Foi a coisa mais portuguesa que eu já fiz na França. O sabão literalmente lavando meus olhos por dentro foi uma dor insuportável, não sei onde eu estava com a cabeça. Neste meio tempo, amigos e familiares começavam a ligar no meu telefone, para desejar feliz ano novo. Obviamente não consegui atender ninguém. Com os olhos vermelhos por dentro e borrados de preto por fora, meu figurino de reveillon era puro glamour.

Enfim, criancas prontas, adultos assim como deu pra ser (sogra e sogro foram dormir, mas não antes de tentarem me convencer de que “ir para o centro com criança aquela hora e naquele frio não seria uma boa idéia”. E eu pensando “losers! É reveillon e estamos em Paris! Vão dormir vocês, fracassados!” haha. Saímos do hotel e chegamos na estação, Gabi já bem cansada, mas feliz por andar de “trem”. Só que o próximo só chegaria em 27 minutos. E já eram 10:15 da noite. O Tim querendo desistir: “acho que não vai dar tempo. Demoramos muito pra sair” e eu “temos que ir, amor! Vai dar tempo sim. É reveillon, estamos em Paris!”. Foi aí que me dei conta de que esquecemos a câmera fotográfica. Como havia tempo até o trem chegar, eu convenci o Tim a voltar pra buscar, enquanto eu esperava com as meninas na estação. Afinal, era reveillon e estavamos em Paris! Precisariamos tirar pelo menos uma meia duzia centena de fotos.

Finalmente pegamos o trem e 10 minutos depois a Gabi já estava dormindo no carrinho. Mas ainda faltava uma meia hora até chegarmos na estação final e eu comecei a ficar com medo de realmente não chegarmos a tempo da virada. Por fim descemos do trem e percebemos todos os elevadores da estação parados, escadas rolantes desligadas. Olhei para aquelas escadas enormes, cada uma com uns 100 degraus no mínimo cada. O Tim querendo desistir e eu “agora que chegamos até aqui temos que ir! É reveillon! Estamos em Paris!”. Ele cogitou alguns minutos, mas não poderíamos perder tempo. Subimos juntos o que pareceu ser a escada mais longa da minha vida, eu segurando o carrinho da Gabi pelos pés e o Tim pela frente.

Mas qual não foi a nossa surpresa ao chegarmos lá em cima e perceber que havíamos subido apenas UM andar. Deveria ter mais uns três pelo menos acima. Ou Deus sabe mais quantos. E eu não tinha me lembrado desse detalhe. Quem já viu o metrô de Paris sabe do que estou falando, a cidade é oca por baixo, como diz meu pai. Foi aí que o Tim jogou a toalha, a decisão estava em minhas mãos. Eram quase 11:40 da noite, não iriamos conseguir sair da estação e andar ate onde deveriamos andar, para vermos a virada a tempo. Mas eu sentia que precisava tentar. Afinal, era reveillon e estavamos em Paris!

Ficamos assim parados por alguns minutos, eu tentando me convencer por dentro de que ele estava certo. Poderiamos voltar amanhã durante o dia, com a Gabi acordada, os elevadores funcionando, como qualquer casal normal com filhos. Mas amanhã não seria mais dia 31. Meu coração de viajante me mandava subir mais aqueles 500 e tantos degraus e me aventurar pelas ruas geladas, com os olhos brilhando pelas luzes de ano novo. Mas meu coração de mãe naquela hora olhou para a Gabi dormindo, cheia de cobertores e com a capa de chuva do carrinho por cima, para evitar o vento no rosto. Olhei de novo para a cara do Tim, que mais parecia um cachorro que caiu da mudança. Não falei muito, só engoli seco. Engolir seco na França é algo assim como engolir um escargot inteiro sem pestanejar. Olhei pra baixo, pegamos de novo o carrinho e descemos os 100 degraus que a haviamos acabado de subir.

Ficamos parados na plataforma, esperando o mesmo trem, desta vez de volta. Assisti os números mudando naquele relógio, de minuto a minuto, imaginando as luzes, os tim-tins de copos, a Torre brilhando, o frio no rosto. Estar frustrada em Paris doía mais do que estar frustrada em qualquer outro lugar do mundo. Tá bom, era uma dor assim muito mais chique, pra falar verdade. De repente uma frustração mais sofisticada do que uma frustração em Belo Horizonte, em Brasília ou em Rugeley – cidadezinha do interior da Inglaterra, onde moro. Mas quando o relógio da estação marcou meia noite, uma lagriminha solitária desceu pelos meus olhos borrados de rímel da tarde anterior. Eu deveria ter tirado uma foto com aquela câmera que fiz o Tim voltar pra buscar. 00:00. Então o Tim veio me abraçar: “feliz ano novo. Não importa, babe. Estamos em Paris”. E eu assim com aquela cara de Napoleão que perdeu a guerra, peguei o trem de volta para o hotel, para esperar o ano novo que começava.