e foi assim que a Olívia nasceu

Logo que vim morar pela primeira vez aqui na Inglaterra, em 2007, fui fazer um passeio ao País de Gales, organizado pela universidade. No passeio estava incluído escalar uma montanha bem famosa na região. Seriam de 4 a 6 horas de subida, muitas pedras, vento, ar rarefeito. Mas como segunda opção, as pessoas poderiam escolher subir a tal montanha em um trenzinho, coisa assim de meia hora/quarenta minutos, sem suor, bem conveniente, mamao-com-acucar mesmo. E as duas opções permitiriam apreciar exatamente a mesma vista lá de cima. Mas eu lembro muito bem da sensação de chegar no topo da tal montanha com as pernas bambas, os amigos que fiz durante aquelas 5 horas, os milhares de sanduiches que comi para recuperar a energia e as fotos incríveis que tirei pelo caminho. Nós todos apreciamos a mesma vista lá de cima. Mas apenas alguns de nós presenciou o percurso. A sensação de plenitude depois daquela caminhada foi inexplicável.

Assim foi o nascimento da Olívia. A minha caçulinha nasceu há quase 6 meses atrás e eu preciso contar aqui como aquele dia foi especial, um dia abençoado mesmo. A Olívia escolheu nascer exatamente no dia seguinte que meus pais chegaram aqui, numa terça-feira de outubro, eu com 39 semanas e 5 dias de gravidez.

Acordei as 5 horas da manhã com umas colicazinhas e de cara eu já tive certeza, iria conhecer a minha menina! Lembrei bem de como começaram as contrações quando a Gabi nasceu. Mas desta vez eu estava determinada a fazer tudo bem diferente. Quando eu tive a Gabi, eu simplesmente não sabia de nada. Assim como a maioria das grávidas de primeiro filho, eu tinha muito medo de tudo: da “dor” do parto, do desconhecido, daquela coisa nova que iria acontecer e eu nao sabia como lidar. Parto, que palavra doida, a gente usa pra explicar uma coisa muito dificil, dolorosa, longa. “Nossa, hoje foi um parto!” E foi assim que eu fui dar a luz a Gabriela. Com muito medo de parir em um país que não é o meu. Onde nem se usa muito anestesia. Onde as taxas de cesáreas são baixíssimas. “Isso nem se parece primeiro mundo” – pensava eu. Se você não se lembra, leia aqui.

E assim resolvi fazer tudo ao contrário. Eu passei 9 meses me informando, aprendendo, determinando o que eu queria pra mim e pra minha filha. Participei de grupos de discussão, conversei com pessoas da área, me reuni com a supervisora da maternidade, estudei hipnose do parto. Eu queria entender porque o mundo transformou o parto normal num evento tão doloroso. Porque ninguém mais quer escalar a montanha. Porque marcamos cesáreas desnecessárias com 38 semanas de gestação. Porque começamos achar normal abrir um buraco na parede ao invés de sair pela porta. Eu só queria entender porque um evento tão natural do ser humano se transformou, com o passar das décadas, numa cirurgia com hora marcada. Eu queria informação suficiente para escolher o outro caminho e aproveitar a escalada.

Então foi assim. As contrações começaram as 5 da manhã, bem levinhas. De tempos em tempos eu me sentava na cama, respirando e deixando que elas fossem se “desbotando”. As 6h eu acordei o Tim e ficamos nós dois, sorrindo como bobos, contando os minutos entre cada contração. Resolvi que iria tomar meu café, comer, fazer tudo o que normalmente faço e esperar em casa o máximo possível. As 7h acodamos meus pais e avisei que estava indo para o hospital (eu me lembrava em como fui de 2cm pra 6cm com a Gabriela, em menos de 1h). Saimos para o hospital as 7h30, uma pequena viagem de meia hora até a cidade vizinha. Contrações a cada 3 minutos. Fui no banco de trás, apoiada no meu joelho, cabeça enfiada numa almofada, respirando fundo. Não era dor, era uma pressão bem forte. Respirava e sentia esta pressão diminuindo a cada segundo. Lembrava do meu livro de hipnose para o parto. Eu estava perto de conhecer a minha filha.

Chegamos ao hospital e eu caminhei calmamente até a maternidade. De 3 em 3 minutos eu parava de andar, ajoelhava no chão, enfiava a cabeca na minha almofada e respirava, no meio do corredor do hospital.

Depois de 30 minutos em uma cama sendo monitorada (os 30 minutos mais longos da minha vida), a parteira veio me examinar e para nossa surpresa eu já estava com 8cm! Corre-corre para encher a banheira. Entrei na água e foi como entrar em um mundo paralelo. Pedi para que diminuissem a luz, eu só queria me concentrar e ajudar minha filha a nascer da forma mais natural possível. Elas me ofereceram gas&air – aquele gás que funciona como analgésico – mas eu lembrava de como no meu livro de hipnose explicava que quando se inala o gás estamos fazendo o movimento de “sugar”, quando na verdade devemos soprar, expelir. Então recusei qualquer interferência e foi assim nu-e-cru, intenso, inesquecível. As duas parteiras me perguntaram quem iria pegar o bebê, eu ou o Tim, e eu disse que o Tim poderia pegá-la. Só que para a nossa surpresa, assim que elas viram a cabecinha apontar, preceberam que a bolsa ainda não havia estourado, a Olívia ainda estava empelicada. Na próxima contração a cabeça saiu como um balão cheio de água, e com uma força saiu o corpinho todo, só me lembro dela flutuando para o topo, tão rápido que eu não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo! As parteiras tiraram a bolsa e colocaram a minha menininha no meus braços, o cordão ainda pulsando, aquele cheiro de vernix. O Tim finalmente apoiado no meu ombro, depois de ter sido o meu apoio por horas. A água morna da banheira abraçando o meu corpo junto da minha filha e um sorriso no rosto de cada um naquela sala de parto. Uma das experiências mais plenas da minha vida. Se eu pudesse dar um presente para cada grávida desse mundo seria a chance de escalar esta montanha. Porque eu não consigo explicar só com palavras como é a sensação de chegar lá em cima.

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