essas pequenas grandes coisas

Neste Natal tive o privilégio de receber meus pais aqui em casa e durante duas semanas as minhas meninas puderam conviver um pouco mais com os avós que elas tanto amam. O papai fez a Olivia dormir cantando, embalada em seus braços. A mamãe fez incontáveis tabuleiros de pão-e-queijo. Saímos para andar na chuva e no frio, visitamos lugares novos e retornamos a lugares que eles gostam. O papai quase perdeu o chapéu no vento, a mamãe adorou comprar vestidos novos. O papai ficou igual criança em uma loja de facas e canivetes Joseph Rodgers. Os dois se deliciaram nos supermercados ingleses e cozinharam a nossa ceia de Natal. A mamãe colocou a Gabi pra dormir, para que eu e o Tim pudéssemos sair a noite sozinhos. Dividimos várias garrafas de vinho, nos apertamos todos no carro, patinamos no gelo, compramos bilhetes de trem. Ter meus pais por perto é lembrar que o que realmente importa são estas pequenas coisas. Estas pequenas grandes coisas que fazem a vida valer a pena.

E ontem de manhã o Tim saiu da cama quando ainda estava escuro lá fora. Escutei ele levantando mas voltei a dormir. Minutos depois me volta ele, bandeja de café da manhã nas mãos e um feliz aniversário, que por um momento eu havia esquecido. No facebook, mais de 100 amigos me desejaram o bem. Meu coração se aqueceu e eu me senti tão querida. O bem é uma corrente que vai e volta. Fiz 38 anos e percebi como tenho sorte; pelos amigos, pela família, meus pais. Estes são meus verdadeiros presentes de Natal, de aniversário, de vida. Obrigada, 2015. Só gratidão por mais um ano pela frente.

Ballet

A Gabi sempre falava que queria fazer ballet. Então fomos lá matricular na única escola de ballet clássico da minha cidade, que por sinal é filiada ao Ballet Royal de Londres. Confesso que nas primeiras semanas eu estava torcendo veladamente pra ela desistir da idéia, já que as aulas custam uma pequena fortuna mensal. Além do mais, a professora super rígida não permite nem que os pais assistam as aulas. Pensei: isso não vai durar, a Gabi não vai gostar disso não. Mas ela adorou. Chega em casa e me mostra os passinhos que aprendeu. E com aquele corpinho magrinho, aquele coque loiro e cheio, toda vestida de rosa-bebê, com aquele uniformezinho que eu relutei em comprar e me custou uma segunda fortuna. Aceitei que ela leva o maior jeito. E toda semana ela pergunta que dia tem ballet. Bem, perguntava. Até na semana passada.

Na semana passada a Gabi decidiu que não gostava mais do ballet. Mas como assim, filha, você ama o ballet!! “Não, mamãe, não quero ir mais não”. Mas que ótimo!! Depois que nos matriculamos. E compramos este uniforme lindo, completo. E até o casaquinho de frio oficial, na semana passada! Tudo bem então, ainda tenho que pagar mais um mês de multa de cancelamento, que perfeito! Mas deve ter uma razão. Ninguém decide que não gosta assim de um dia pro outro. Filha, mas porque você não gosta do ballet? “Não gosto mais. Não quero ir mais não”
Conversei com o Tim, a Gabi vai largar o ballet. “Não, não pode! Ela é a nossa única esperança, Karla. Olha a Olívia e a Claudia. Você consegue imaginar a Olivia ou a Claudia vestidas de colant e tchutchu?” Ele tinha razão, a Gabi era a nossa única esperança de investimento.
Insisti. Filha, mas tem que haver um motivo. Porque você decidiu que não gosta mais do ballet? “Ah mãe, a gente tem que fazer um passo do ‘cavalo’ e eu não gosto!”
Então era isso, o passo do cavalo. Não faço a mínima idéia do que esse tal passo do cavalo significa, mas ele não vai estragar os planos de futuro da minha filha. Convenci a Gabi de que eu iria conversar com a professora supre “flexível” dela, para deixa-la fora do tal passo do cavalo. Chegamos lá, a Gabi escondida atrás de mim enquanto eu falava: “Olha, a Gabi não queria mais voltar pro ballet. Tem um tal passo do cavalo que ela não gosta, então se ela puder ficar sem fazer este passo do cavalo por algumas semanas, eu agradeceria”. E professora com um sorriso ortodoxo: “Chassé! O passo do pônei. Não, ela não pode ficar sem fazer, faz parte dos exames.”
Meu Deus protetor das bailarinas de 4 anos de idade! E eu que achava que a minha filha estava se divertindo, não estudando para provas do Royal de Londres! Pois seria agora que esta professora iria descer dessa sapatilha de ponta. Abaixei e olhei bem pra Gabi, “Filha, então vamos embora? Você não precisa ficar, se não quiser. Vamos cancelar agora este ballet”. E ela toda sorridente “Quero ficar mamãe”. E saiu galopando pela sala.