olhos e janelas

Parece mesmo papo de Miss Universo, mas esta semana que passou eu fiquei pensando sobre os problemas do mundo. É bem lugar comum falar isso, mas fiquei pensando em como as vezes – ou quase sempre – a gente pensa que os problemas que temos são os maiores possíveis e ninguém está passando por nada igual. De certa forma acho que estamos certos em um ponto: ninguém melhor do que nós mesmos para entender nossas próprias angústias, o nosso momento vivido. Mas seja lá o que for que estivermos passando hoje, vai sempre existir alguém em situação muito mais difícil. Não se trata necessariamente de situação “pior” – cada qual sabe o quão doido é o calo em seu próprio pé. E talvez uma situação que pareça simples pra um, é muito complicada de lidar para o outro.

Exemplos corriqueiros estão em toda parte. Quantas vezes já reclamei de uma comida que não gostava, prontinha lá na mesa esperando por mim. Ou pensei que fosse morrer de fome, depois de um dia longo fora. Mas de verdade, o que é “passar fome” realmente? Eu não sei, e você aí no seu iphone lendo isso provavelmente também não deve saber. Já me senti a pessoa mais “sem liberdade do mundo” quando, aos 15 anos, não tinha a chave de casa. Sem entender que existem pessoas lutando por liberdade de verdade, seja ela física ou de expressão, ou simplesmente por direitos civis, por necessidades básicas. E vivo reclamando de como a minha filha me dá “trabalho”, de como estou com saudade da família no Brasil e já faz UM mês(!) que não os vejo. Enquanto deveria mesmo era estar grata por ter uma filha aqui comigo e uma família do outro lado do mundo. E aí a gente reclama da chuva que não pára, da gripe que não passa, do trânsito, da dor nas costas. E daquela espinha inconveniente, da grana que está curta, dos dias que passam rápido demais e dos dias que custam pra passar. Tudo parece tão “injusto” as vezes.

A verdade é que a gente reclama muitas vezes por hábito e poucas vezes porque realmente dói. E esquecemos que, fora ali do nosso mundinho, existem pessoas travando batalhas muito maiores do que as nossas. Esquecemos e julgamos, julgamos o outro quando não consideramos seus problemas dignos de dor e nos julgamos merecedores de atenção especial, simplesmente porque a ferida quando é na nossa pele parece sangrar mais do que na dos outros. E veja bem, não estou aqui escrevendo isso tudo porque eu “beatifiquei” e vou parar de reclamar a cada vez que eu não tenha um dia bom ou receba meus extratos bancários. Quem me dera. Mas quero pelo menos tentar me lembrar disso tudo o maior tempo possível por dia e quem sabe aprender um pouco, seja com a dor do outro, seja com as minhas próprias dores.

Acho mesmo que o ser humano é um eterno inconformado. Mas que esta “inconformidade” então seja usada para cicatrizar feridas e não para a nossa auto-piedade. É o papo contrário da grama verde do vizinho. Enquanto a gente lamenta a nossa graminha surrada, do outro lado da rua tem uma casinha que nem sequer jardim tem. Então seja lá o que estivermos passando, vamos abrir os olhos para as janelas alheias, fechar as nossas por um momento e perceber como temos sorte na vida.

O dia em que eu falei nao pra ela

Dois anos e quatro meses se passaram desde que eu passei do estado de simples mortal para o estado de simples-mente mae. O que, na verdade, nao eh nenhum credito. Eh apenas uma condicao.

Enquanto tem maes que trabalham “fora” e cuidam dos filhos no tempo livre (se eh que mae tem tempo livre!), eu tenho o privilegio de cuidar da minha filha em tempo integral (se eh que podemos chamar isso de privilegio, haha). Bem, resumindo, eu vivi estes 2 anos e 4 meses “em funcao” da minha filha. Vou explicar melhor.

As pessoas normais passam 9 meses esperando pelo bebe. Eu vivi 2 anos esperando pela Gabi: esperando que ela acorde, para que eu comecasse o meu dia. Esperando que ela chore, para que eu a conforte. Esperando que ela tenha fome, para que eu tambem possa comer. Esperando que ela desse o grito, para que eu estaja la, de prontidao. Esperando que ela durma, para que eu possa fazer algo sozinha, como por exemplo ir ao banheiro, comer uma barra de chocolate ou olhar para o teto. Leva-la para a escola, por exemplo, doi mais em mim do que nela. (Vai que ela passe a nao precisar mais de mim? Assim como quando ela parou de mamar no peito. Vai que ela pare de me “amar”.)

So muito recentemente, eu entendi que eu nao preciso viver em “funcao” dela. Que eu posso fazer as minhas coisas, deixar que ela faca as coisas dela, e ainda assim, ama-la incondicionalmente. E nao sei se foram os dois anos completos dela que me permitiram enxergar isso, ou se foi o bebe de uma amiga que nasceu e me fez enxergar bebes de outra maneira (tudo parece tao mais facil agora que ja “sei das coisas”!), ou se foi a ajuda da minha brilhante terapeuta no Brasil, ou tudo isso junto.

Durante estes ultimos meses, eu nao encontrei nem motivacao para escrever aqui. Era como se a maternidade tivesse me sugado. Ou eu permitido que ela me absorvesse por completo. Mas perai, nao era a maternidade esta coisa linda de se viver? Este estado natural-espiritual-humanizado que nos fortalece e nos faz uma pessoa melhor, quase uma madre-Tereza de Calcuta? Eu acho que custei um pouco a entender que maternidade nao eh simplesmente doacao. Mas troca e crescimento mutuo. Pois bem, vou contar um pouco aqui.

Quando a Gabi nasceu eu me vi literalmente “sozinha”. Tinha acabado de ganhar aquele bebe lindo e saudavel, mas no dia seguinte ao chegar em casa, quando acordei e o Tim foi trabalhar, a primeira coisa que pensei, ao olhar em volta e ver aquela bagunca (so porque fiquei fora por 2 dias e meio!) foi: fudeu. Por sorte os recem-nascidos dormem muito durante o dia, entao eu tentava botar as coisas no lugar quando dava. Meus pais vieram pra ca, minha mae ficou tres semanas comigo e acabou tendo que ir embora antes da hora, porque meu avo – e pai dela – sofreu um infarto. Lembro da noite em que ela se foi, eu com aquele bebe de um mes acordado de madrugada (Gabi nunca foi de dormir, quem eh de dormir eh a mae dela) e chorando (nao ela; eu), pensando: ca estou eu de novo, “sozinha”. E nao posso devolver este bebe para dentro do meu utero. Ela eh minha pra sempre e eu preciso cuidar dela. O meu avozinho estava mal, mas eu so pensava em mim mesma. Na vida que seguia, agora com um bebe. E o peso da responsabilidade bateu. Bateu como um tapa na cara, desses que eu nunca levei na vida.

E os meses foram passando, Gabi foi crescendo, mas eu nao conseguia entender que eu nao estava sozinha. Ao inves de ve-la como uma companhia, eu a via como um anexo de mim mesma. Ou seja, a vida so andava quando a Gabi queria. Porque afinal, eu nao tinha como andar pelas metades. E assim abri mao de muitas coisas, nao porque a Gabi pediu, mas porque eu entendi que deveria. Que ser mae era assim mesmo. Que agora “fudeu”. A verdade eh que eu nunca duvidei do meu amor por ela, mas varias vezes cogitei a possibilidade de nao ser uma boa mae.

E ai eu lia, pesquisava sobre filhos, criacao, sopinhas caseiras, brincadeiras Montessori, bilinguismo, educacao, depressao-pos-parto. E tudo mais que pudesse ser relacionado a filhos e a maes com tempo e neura de sobra para fazer este tipo de pesquisa. Afinal, eu queria ser perfeita pra ela. Queria ser uma mae da qual ela se orgulharia. A minha culpa de um dia ter pensado “agora fudeu” era muito grande para que eu me permitisse errar. Meu maior terror era pensar que ela nao me amaria um dia. Entao, a minha principal meta do dia era nao deixa-la chorar. Antes que ela soltasse o primeiro grito, la estava eu para atende-la com o que quer que ela precisasse: um colo, uma teta, um pirulito. E mesmo assim ela chorava, chorava como se o mundo fosse acabar em agua. Lembro da minha mae falando que aquilo era fome. E la vinha eu, com leite, com musica, com colo, com o diabo a quatro, qualquer coisa que fosse ajudar a acalmar o choro. Lembro de uma noite, quando ela estava com uns 10 meses, ela chorou tanto, por tanto tempo, que eu e o Tim quase a levamos para o hospital, pensando que algo nao estava bem, que ela estava com alguma dor aguda ou sei la o que. E cada vez que ela chorava, eu me debulhava em lagrimas por dentro. Eu nao queria que ela chorasse. Eu estava “sozinha”. E se ela estava chorando tanto era porque eu estava fracassando na incrivel arte de ser mae. Eu nao tinha com quem contar.

Foi ha pouco tempo atras que a minha terapeuta me veio com esta afirmacao: “Karla, voce pode falar ‘nao’ para ela”. Nao que eu nao ensinasse o certo e errado pra Gabi. Nao que eu fosse permissiva, ou que ela fosse mal educada. Gabi eh uma menina linda. Nao faz falta de educacao, nao briga com outras criancas, nao desrespeita os mais velhos. Porem, eu estava ensinando a Gabi uma coisa ao contrario: Gabi nao sabe lidar com frustracao.

Se ela quer algo e nao consegue, a casa cai. E eu sempre achei que isso era forca de vontade, determinacao. Gabi eh mandona. Entao pronto, nao podemos mudar o ciclo das coisas, nem a personalidade das pessoas. Mas nao eh bem essa a verdade. Gabi, assim, como eu, precisa aprender a lidar com o nao. Nao falo simplesmente um “nao” de coisa “errada”. Afinal, a Gabi, assim como eu, nao faz “coisas erradas” (seja la o que isso significa!) Mas estou falando de um nao de “infelizmente voce ‘nao’ pode ter/fazer isso agora, querida”. E ai pode chorar, espernear, se debater. E aprender com isso uma licao importante, pra vida. Vai passar. E ponto final.

Notei que esse tipo de “nao” doi muito no coracao da Gabi. (Bem, doia mais ha algumas semanas atras, mas agora ela ja esta lidando melhor com ele – ou seria eu quem estou lidando melhor com isso tudo?) E por outro lado, poder usar este “nao” quando preciso me da um sentimento de poder enorme, nao um poder de rei, mas um poder doce de “poder ser mae” por completo, de poder tomar uma decisao que vai desagrada-la, se eu achar que eh para o bem dela. E ai de repente eu percebi que somos duas pessoas separadas, eu sou a mae e ela a filha, dois seres humanos diferentes, que se acompanham, mas nao se completam, porque ninguem tem que completar ninguem neste mundo. E foi ai que eu me senti livre. Livre para ama-la da forma mais incondicional possivel, sem me preocupar se ela vai me amar de volta, sem tentar ser uma super-mae de guia de auto-ajuda para mamaes de primeira viagem.

Eu aceitei que eu nao sou perfeita, ela nao eh perfeita, e nem temos que ser. Aprendi que se ela chorar, eu posso ate oferecer meu colo e meu carinho, mas nao posso evitar suas lagrimas. Que ela vai encontrar outros muitos “naos” pela frente na vida e eu nao vou conseguir catar cada pedrinha do seu caminho. E estou aprendendo ainda que o melhor presente que posso oferece-la eh deixa-la ser ela mesma, com suas manias, suas docuras, suas frustracoes.

photo (26)
*Outro dia falei que a Gabi esta no melhor momento dela. Estou adorando tudo o que ela faz, o que ela fala, o que ela eh. Mas acho que nao foi a Gabi que mudou. No fundo mesmo, quem mudou fui eu.

Ela cresceu

A minha garotinha cresceu. Com dois aninhos de idade me faz perceber como o tempo voa.

Entao ta, minha “big girl”. Voce pode ser o que quiser, desde que seja feliz. Mas pra mim voce ainda eh meu bebezinho, minha garotinha que me ensinou a ser mae.

pic-pega

Gabi brincando de pic-pega com o Tim até que de repente ele para um pouquinho e ela vem com esta: “daddy, more guêia! more guêia!” Ele me olha com aquela cara de “traduza, por favor”, já que ela mistura inglês e português na mesma frase. E eu, sem entender o que “guêia” significa, fiz uma cara de interrogação enquanto ele mesmo concluía o que a pequena queria: ahhhhh, honey, more “get ya!” Yes, baby, daddy is gonna get yaaaa!!!!

e desde quando a vida segue regras

Alguém postou hoje num grupo do qual faço parte no facebook um link para um blog onde a autora explica as 25 regras para maes de meninas. Antes mesmo de começar a ler eu já estava chorando. Assim, de emoção, de imaginar sobre o que ela falaria, e de olhar para a minha menininha que estava atenta assistindo a TV enquanto a mamãe dela estava mexendo no celular – desperdiçando um pouco do precioso tempo que elas deveriam estar passando juntas, não só no mesmo cômodo da casa, mas juntas assim brincando, rindo. Comecei a ler e no meio da postagem eu larguei tudo para abraçá-la. Abracei tão forte minha menina que ela tentou escapar. Aí acho que ela percebeu umas lágrimas no meu rosto e voltou devagarinho, deitou a cabecinha no meu ombro e enquanto eu repetia: “a mamãe te ama, filha”, ela sorriu. Aqueles cinco minutos que ficamos abracadinhas valeu pelo meu dia todo. Agradeci a Deus por ter me dado esta criança de presente. E por me dar sanidade para perceber como os momentos com ela são importantes, e como devo aproveitá-los. Nesta fração de tempo, um monte de regras se quebraram na minha cabeça bobinha de mãe. Fiquei pensando no que a autora escreveu, em como valorizar as coisas pequenas e simples, como a amizade com sua filha. E fiquei pensando naquelas regras que lemos em livros, que escutamos de outros pais mais “experientes”, que achamos ser corretas. Fiquei pensando no mito do “filho perfeito”, na educação de ouro. E me veio a cabeça como os avós são tao mais sábios que nós, simples “pais”. Os avós já acertaram e já erraram, e agora se dão o direito de simplesmente amar; amar os netos e deixá-los serem felizes. Sem muitos “nãos”, sem muitas regras escritas. Claro que “não” tambem pode ser parte do amor, quando usado na hora certa. Dar limites também é amar. Mas entendi que quando meu pai carrega os netos no colo por horas a fio (e olha que a mais velha já vai fazer 5 anos) mesmo com as costas doendo, fazendo todas as mil vontades de cada uma das 4 crianças, ele não está “mimando”. Está amando. Aceitei que quando a minha sogra não sabe negar um chocolate pra Gabriela, o nome disso também pode ser amor. Os avós tem o dom de amar os netos sem muitas leis, porque os pré-conceitos já ficaram lá atrás, num tempo em que eles também eram apenas pais, e estavam muito preocupados em fazer a coisa “certa” o tempo todo. Mas acho que a verdade é que quando a gente faz com amor, não tem como dar errado. Então hoje eu prometi a mim mesma e para a minha filha que vou seguir menos regras e mais meu coração. Que não vou mais chamar a atenção dela quando ela quiser passar o dedinho na manteiga do pão. Vou deixar ela tomar mais banho de espuma, sem me preocupar tanto que “sabão demais vai ressecar a pele”, simplesmente porque ela adora uma banheira cheia de espuma. Vou deixar ela calçar a Crocks com meias para sair de casa. E misturar todas as cores das massinhas quando ela quiser, afinal quem decidiu que o azul não fica bem com o rosa na mesma bolinha. Não vou achar ruim quando ela tentar passar meu batom, só porque ele é MAC e custou caro. Nem quando quiser dormir na minha cama, se não estiver num dia bom. E se um dia não estiver com apetite para jantar, um pedaço de bolo nao vai fazer tanto mal, afinal, até a mãe dela gosta! Quero que ela brinque sem medo de se sujar, dance sem vergonha de quem está olhando, ria de si mesma e viva intensamente, porque ela só é criança uma vez na vida. Quero que ela entenda que eu também estou aprendendo que a vida é muito curta para seguirmos regras estabelecidas por outro alguém que não seja nós mesmos. E que enquanto isso eu também vou errar, me arrepender, acreditar em muita coisa sem fundamento e falar muitos nãos sem necessidade específica, só porque um dia eu ouvi que é assim que se faz, que é assim que se “cria”, que se educa. Mas um dia, quem sabe quando eu virar avó – eu chego lá.



 

muitos anos atrás, numa sexta-feira santa

Sempre que chega um feriado ou data especial me da uma baita saudade de casa. Eu fico imaginando o que cada um esta fazendo, o que estão comendo, conversando, como está o tempo, etc. E as vezes tambem fico desencavando lembranças, do tipo “há X anos atrás, nesta data, eu estava fazendo isso ou aquilo”. E aí me veio a memória da semana santa. Uma memória bem lá de longe, da minha infância. Semana santa pra mim não era simplesmente ovos de chocolate, como para muitas crianças. (Aliás, eu e meus irmãos nem ganhavamos tantos assim – era um ovo só e as vezes um coelhinho da madrinha; e eu ficava com uma invejinha dos amiguinhos da escola que contavam as vantagens na segunda-feira que ganharam um “número 15” da mãe, um “número 20” do pai, um “número 40” do tio e assim subsequente, naquela progressão aritmética Pascal que conhecemos bem).

A lembrança real que tenho da Páscoa é daquele cheiro de vela queimando na procissão de sexta-feira da paixão. Do meu bisavô fazendo uma rodelinha de papelão com um buraco no meio, para que eu e minha irmã colocássemos a nossa vela branca e assim evitássemos que a cera derretida pingasse na nossa mão. Da preparação para o dia, das barraquinhas que vendiam churros e pastel de bacalhau. A pracinha da matriz se fazia viva e era como se o mundo inteiro fizesse parte. Do clima de fé, daquele que transcende qualquer crença e religião. Da minha irmã que chorava todos os anos quando a imagem da Virgem Maria passava, aquela toda vestida de luto e com uma espada fincada no coração. E daquele monte de gente andando em fila e em completo silêncio, as velas acesas que pareciam estrelas na noite. O único barulho que se ouvia era o daquela catraca que alguém passava batendo, anunciando algo que eu nunca entendi bem o que. E da minha bisavó e da irmã dela assistindo a tudo pela varandinha de casa, ja cansadas para acompanhar a procissão a pé. Tudo assim tão simples mas ao mesmo tempo tão grande na minha lembrança. E tudo tão melhor do que qualquer ovo de chocolate; muito mais doce e belo, na minha imaginação de menina.

jardim da infância

Resolvi colocar a Gabi na escolinha por alguns dias da semana de manhã, já que aqui você pode escolher os dias e pagar apenas proporcional. Então podemos passar antes pelo período de adaptação, onde eu posso ir junto com ela por 3 dias antes de finalmente começar a guerra de verdade. Aí antes de começar ja mentalizei o ambiente e me preparei psicologicamente para não estressar com crianças correndo, uma tomando o brinquedo da outra, massinha grudada no sapato, nariz escorrendo e bocas sujas de yogurte. Teria que relaxar e deixar a Gabi enturmar com os coleguinhas, mesmo que ela leve um ou dois puxões de cabelo no princípio. Ou por dia.

Mas qual não foi a minha surpresa quando cheguei a escola e ouvi nada mais do que silêncio. Cheguei muito cedo? Não, pessoal, as crianças estavam quietinhas porque estavam ouvindo uma historinha. Isso mesmo, crincas de 1 ano e meio, sentadinhas ouvindo a professora ler um livrinho. Aí de cara percebi que entrei em campo com o time perdendo. A Gabi não fica assim em silêncio nem se estiver comendo um bolo de chocolate. E em seguida, quando a professora avisou que era hora de lavar as mãos para o lanche, eu pensei: é agora que eles irão se rebelar e quero ver sair todo mundo molhado de lá. Mas que nada. Todas aquelas coisinhas minúsculas se locomoveram em direção ao banheiro e se dividiram entre 4 piazinhas, cada uma com duas torneirinhas, onde lavaram educadamente suas mãozinhas e formaram uma fila enquanto a professora esperava-os com o papel-toalha. E eu fingindo que estava tudo sob controle, enquanto a Gabi tentava fazer splish-splash com a espuma no fundo do lavatório. É pessoal, eu estava ferrada. E a Gabi mais ainda.

Hora do lanche e eu confiante, dessa vez eu tenho certeza de que não vamos passar a limpo. Só que as criancas de menos de dois anos falam por favor antes de pedir algo e obrigado, assim que recebem. Comem tudinho. Levam os pratinhos e copos vazios para uma bancada ao lado, assim que terminam. E brincam lá fora, num frio de 5 graus, sem gritaria e sem empurrão. Fazem fila no escorregador, dividem o carrinho. E ajudam a por os brinquedos no lugar, a tão famosa hora de “tidy up”, onde ganham um adesivo na blusa pelo bom comportamento. E a Gabi querendo puxar as gavetinhas, abrir as caixas, subir na cadeira, descobrir o mundo. E no seu primeiro dia sozinha, quando eu fui buscá-la me deparei com uma criança estatelada no chão, fazendo uma verdadeira birra, sacudindo as pernas, batendo os pés no chao, o rosto vermelho de tanto chorar. Aliás, antes mesmo de chegar na sala eu já sabia de quem se tratava. A Gabriela dando um show a parte e sendo assistida pelas outras 5 criaturinhas, que se dividiam milimetricamente em uma mesinha perfeitamente redonda, e não conseguiam mesmo entender o motivo de tanta demonstração emotiva.

boneca de neve

Muita neve la fora, temperatura abaixo de zero e escolas fechadas: uau! o paraíso das crianças inglesas. Quem teve infância aqui gosta mesmo disso. Brincar na neve, deitar e rolar no gelo, fazer bonecos, como se fosse brincar na praia, rolar na areia igual coxinha e fazer castelinho. E como não posso vencê-los, convencendo-os de que passar frio é coisa de gente louca, tive que juntar-me a eles – mas deixo claro que foi só pelo fato de que agora tenho também uma criança em casa. Uma criança que por alegria do destino é metade inglesa.Então, pela lógica, ela deve gostar nem que seja 50% do frio, algo assim do tipo “gosto do frio um dia sim, um dia não”. Pois bem, resolvi então que meu papel de boa mãe com cabeça aberta a novas culturas seria deixar a Gabriela brincar lá fora tambem, ignorando meus pensamentos tropicais de que ela iria na verdade era pegar uma “friagem”. E comecei o processo preparatório para a brincadeira: vestir – eu e Gabi – com umas 18 camadas de roupa, começando com camiseta, passando por blusas de manga comprida e paletós de lã, e por fim casaco, gorro e luvas. A Gabi além disso teve direito a duas calças e dois pares de meia. A botinha quase que não fechou.

Só que brincar na neve nao é como a gente vê nos filmes. Fazer um boneco de neve é mais complicado do que fazer um bolo de casamento de 3 andares. Minhas mãos congelando e eu tirando fotos da Gabriela, fazendo ela acreditar que aquilo era mesmo divertido. Afinal, não quero traumatizar minha filha, fazendo-a pensar que a neve nao é bacana. O que os coleguinhas da escola iriam pensar dela? E além do mais, sua porção inglesa ficaria muito decepcionada. Só que acontece que depois de uns 10 minutos andando de um lado pro outro chutando gelo, acho que até ela ficou meio entediada. E talvez com um pouco de frio. Pediu colo e disse: “tchau neve!” acenando com as mãozinhas empacotadas em uma luva sem direito a dedos. Então entramos em casa, “descamamos”, e ela foi brincar de massinha perto do aquecedor da cozinha. E eu, com um sorrisinho de vitória, constatei que minha boneca deve ser, na verdade, 51% brasileira.

como é duro ser blog em tempos de facebook

Só agora me dei conta de que fiquei quase 3 meses sem escrever aqui! A triste conclusão é que, como ninguém reclamou, só posso ter perdido de vez a minha meia dúzia de leitores para o facebook. Aliás, uma cena bem cotidiana aqui em casa é eu e o Tim deitados na cama de manhã cedo, cada qual com seu smartphone, pesquisando sobre as últimas do mundo, digo, do facebook – essa praga. A Gabriela já até se acostumou, tipo “filha, a mamãe está muito ocupada lendo as notícias, vai brincar ali com seus ursinhos”. Até que depois de uns 20 minutos, quando desperdiçamos tempo para descobrir o que cada um dos nossos 545 amigos comeu na noite anterior, quem está com muito calor, quem está com muito frio, quem acredita que “é melhor ter um inimigo assumido do que um falso amigo”, quem está feliz por ser sexta-feira e quem perdeu 40 kg tomando herbalife; deixamos o telefone de lado para dar um pouco de atenção a nossa menina. E as vezes tiramos uma foto ou outra dela e colocamos lá tambem, no site azul, o tal livro das caras.

O problema agora é que nem estou lembrando bem o que fiz nestes 3 meses, mas graças a minha “linha do tempo” posso refrescar a memória. Ah, sim. Então, em setembro fomos para Cyprus (Chipre, em português, uma ilha que é metade grega, metade turca) para o casamento de um casal de amigos nossos, e a Gabriela foi daminha de honra pela primeira vez. E pela primeira vez também eu e o Tim viajamos para um lugar totalmente novo e podemos falar que não ficamos conhecendo absolutamente nada da ilha, além o caminho da praia para o hotel e do hotel para a praia. Com um pequeno desvio a um supermercado, para comprar fraldas. Normalmente, num tempo bem remoto da minha linha do tempo, lá em 2010 por exemplo, a gente teria feito passeios de barco, de burro, de camelo, visitado todos os pontos turísticos, tirado mil fotos e teríamos mil casos para contar. Mas em compensação, agora sabemos quais as melhores rampas nas ruas para subir com o carrinho de neném e de que lado do passeio tem sombra a que horas do dia. Informações de ouro. Também sabemos quais os restaurantes com as melhores cadeiras-altas e quais servem comida bem rápido, antes que o bebê perca a paciência de ficar lá sentado. Imprecindível. E onde comprar frutas,água mineral, detergente para lavar mamadeira. Além de, claro, a cotação para os barquinhos infláveis de cada uma das lojinhas da praia. Ou seja, se você vai viajar para um lugar super exótico e lindo (dizem que é, nós não sabemos) com um bebê de 1 ano e 2 meses, podemos te dar dicas valiosíssimas.
 

Já em outubro nao fiz nada de muito novo, além do que você já sabe, se em algum ponto da sua vida me adicionou como amiga no facebook. Nem na festa de halloween fomos, a Gabriela com a fantasia de abóbora já comprada, uma fofura – depois tiro uma foto e posto “lá” para voces verem. Deu preguiça do frio e mais ainda de ir em festa de adulto com criança de 1 ano, eu teria que passar a noite toda carregando a abóbora no colo.

E eis que agora chegou novembro, mais frio ainda, a decoração de natal já toda esparramada por onde voce vai, surpreendentemente up to date. Na semana que vem minha irmã amada e meu cunhado chegam aqui e depois eu vou com eles de volta pro Brasil, para uma temporada de 1 mês e meio. E aí todos vocês poderão ficar sabendo como eu também “estou com calor” e o que comi de gosotoso. E claro, vou fazer check-in no Pátio Savassi, na casa da vovó, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, além de postar 237 fotos da Gabriela brincando com o cachorro ou chupando picolé. E se não der para escrever aqui antes de 2013, não preciso preocupar; é só eu atualizar meu status com um feliz ano novo para todos os 545 amigos e adicionar uma foto dos 12 amigos/parentes que estarão realmente presentes no dia – sem esquecer de colocar as “tags” em cada um, claro.

dói, mas precisa

Aqui na Inglaterra existe um grande grupo de pessoas que é contra a vacinação infantil. A princípio me soou como coisa de gente ignorante, coisa de pais loucos, hippies talvez? coisa que eu nunca havia escutado antes no Brasil. Existe uma legião que afirma que alguns componentes nas vacinas podem aumentar as chances da criança desenvolver autismo. Aí ontem a Gabriela foi tomar aquela vacina de quando se completa um ano, acho que meningite + tríplice + alguma outra coisa que não me lembro, uma das piores de acordo com este grupo. Três agulhadas de uma vez só. E desde então ela não tem se sentido bem, fora a dor nas perninhas, ela esta rouquinha, amuada e com muita diarréia. Aí hoje, depois de ter que trocar a roupa de cama inteira do berço dela e colocá-la no banho as 6:40 da manhã, fiquei pensando nessa polêmica da vacina. Claro que eu não deixaria de vaciná-la, sou muito ocidental e normal para isso. Mas senti vontade de conversar a respeito e só existe uma pessoa que pode me ajudar, o meu avô. Isso, quero perguntar a opinião dele. Aquele médico “das antigas”, uma das pessoas mais inteligentes que já vi. Com certeza ele vai me abrir os caminhos, me explicar com bases científicas e me citar várias provas e estudos, seja qual for a opinião dele. Com certeza ele sabe tudo sobre vacinas, sobre autismo, sobre qualquer outro assunto do mundo, de guerras religiosas a receitas de geléia. Pensei em telefoná-lo. Quero ouvir sua voz. Acontece que meu avô não está mais aqui conosco há quase um ano. E por um segundo, aquilo me veio a cabeça como um choque. Chorei tomando meu café da manhã, a Gabriela me olhando amuadinha, sentada na cadeirinha dela. Que saudades me deu do meu avô. Meu avô era o nosso guia. Se a gente estava doente, era só ligar e ele saberia o que indicar – e na maioria das vezes não era remédio. Meu avô era contra remédios. E detestava hospital. Odiava anestesia, cirurgia plástica, cirurgia. Mas amava sua profissão. Adorava aprender, estudar. Era daqueles que, no passado, atendia as pessoas no consultório em troca de um porco vivo, ou uma galinha, quando não podiam pagar pela consulta. Ele atendia não por dinheiro, mas por amor a vida. Hoje eu queria poder te telefonar, vovô. Te contar da Gabriela, te apresentar a ela, que você só conheceu por fotografia. Sei que você me diria pra ficar tranquila, que ela vai ficar bem e a vacina é importante. Ou como disse a Maria Clara minha afilhada um dia no posto médico, antes de levar a agulhada: “dói, mas precisa”. A sua ausência hoje também me dói, vovô.